{"id":8029,"date":"2006-08-15T23:00:00","date_gmt":"2006-08-15T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8029"},"modified":"2006-08-15T23:00:00","modified_gmt":"2006-08-15T23:00:00","slug":"cinderalla-e-hansel-gretel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/cinderalla-e-hansel-gretel\/","title":{"rendered":"Cinderalla e Hansel &#038; Gretel"},"content":{"rendered":"<p><split><\/p>\n<p>Um dos problemas mais fascinantes na discuss&atilde;o das artes s&atilde;o as teorias dos g&eacute;neros, isto &eacute;, de que forma elegemos certos princ&iacute;pios, caracter&iacute;sticas, elementos &#150; usualmente fazendo distin&ccedil;&otilde;es entre elementos &#147;formais&#148; e elementos &#147;de fundo&#148; ou &#147;de conte&uacute;do&#148; &#150; que permitem organizar textos, obras, exemplos dessas mesmas artes em categoriza&ccedil;&otilde;es. Isso apenas ajuda &agrave; Hist&oacute;ria da Arte, &agrave; temporaliza&ccedil;&atilde;o superficial desses mesmos textos e obras, enfim, a uma certa forma limitada de ver as coisas, ou de as organizar em colec&ccedil;&otilde;es. &Eacute; um autor t&atilde;o importante como Walter Benjamin que alerta para o profundo abismo que separa a Hist&oacute;ria de Arte de uma verdadeira problematiza&ccedil;&atilde;o das artes que pode ser garantida pela Cr&iacute;tica, ou aproxima&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas das Artes. Onde um tenta arrumar, a cr&iacute;tica desarruma para tornar mais vivo.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; segredo nem in&eacute;dito a ideia de que o s&eacute;culo XX foi testemunha precisamente do fim das ainda poss&iacute;veis categoriza&ccedil;&otilde;es e generaliza&ccedil;&otilde;es das artes. Se ainda se poderia, com Hegel, at&eacute; meados ou quase fim do s&eacute;culo XIX, falar de &#147;formas adequadas&#148;, de &#147;equil&iacute;brios entre a forma e o conte&uacute;do&#148;, o novo s&eacute;culo &#150; n&atilde;o obstante a tentativa, pr&oacute;pria ou imposta de fora, de instituir &#147;ismos&#148; &#150; veio colocar apenas d&uacute;vidas sobre a mesa. D&uacute;vidas cujo objectivo n&atilde;o seria serem resolvidos mais tarde ou mais cedo, mas sim criar sempre, permanentemente, novos problemas sobre os anteriores.<\/p>\n<p>H&aacute; &oacute;bvias diferen&ccedil;as entre a banda desenhada enquanto modo de express&atilde;o e outras artes, mais &#147;antigas&#148;. Precisamente porque a pintura (nem sempre a mais considerada das belas-artes), a escultura, a m&uacute;sica, etc. Atravessando s&eacute;culos de regras a priori de harmonia e equil&iacute;brio, o choque provocado por artistas t&atilde;o d&iacute;spares como Debussy, Stravinsky, van Gogh, Duchamp, Moholy-Nagy, etc., foi bem mais sentido. A banda desenhada (e em certos aspectos o cinema e as outras futuras artes novas), uma vez que surgiu tardiamente, incorporou a surpresa da experimenta&ccedil;&atilde;o logo como condi&ccedil;&atilde;o da sua pr&oacute;pria vida. Winsor McKay foi um experimentador ex&iacute;mio, mas o seu trabalho n&atilde;o surgiu como &#147;choque&#148; nem &#147;corte&#148;, precisamente porque a linguagem em desenvolvimento da sua arte aceitava essas inova&ccedil;&otilde;es como regras intr&iacute;nsecas do jogo.<\/p>\n<p>Seja como for, as imposi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas e sobretudo as de mercado trariam a necessidade de criar &#147;g&eacute;neros&#148;, ou textos cujas estruturas e temas fossem mais ou menos correspondentes &agrave;s expectativas de um leitorado, e um vez que a sua esmagadora produ&ccedil;&atilde;o estava (e est&aacute;) relacionada com um mercado de entretenimento de massas, n&atilde;o ser&aacute; surpreendente notar que a maioria das coisas s&atilde;o banalmente &#147;gen&eacute;ricas&#148;. &Eacute; assim que se separa o trigo do joio, ou trabalhos verdadeiramente inovadores de simples ep&iacute;gonos de coisas j&aacute; vistas e batidas, cria&ccedil;&otilde;es de banda desenhada de escaparate e verdadeiros autores. A felicidade cont&iacute;nua de um leitor cr&iacute;tico de banda desenhada est&aacute; em descobrir autores que colocam tudo isso em suspenso, complicando as quest&otilde;es: McKay, Herriman, King, Tezuka, Barks, Crumb, Vaugh-James, Ware. E depois h&aacute; aos autores que, mesmo n&atilde;o sendo (ainda?) esmagadores, ainda assim reservam surpresas e solu&ccedil;&otilde;es interessantes e reveladoras de problemas ainda n&atilde;o resolvidos da linguagem desta arte: Mazzucchelli, Sikoryak, Jos&eacute; Carlos Fernandes, Clowes, David B., Turunen. E Junko Mizuno.<\/p>\n<p><split><\/p>\n<p>Nascida em 1973, a carreira de Mizuno come&ccedil;ou como a de desenhadora de characters, isto &eacute;, inventora gr&aacute;fica de personagens cuja fun&ccedil;&atilde;o era decorar certos produtos, para merchadinsing pr&oacute;prio ou alheio &#150; neste caso particular, uma colec&ccedil;&atilde;o de CDs, intitulados Pure Trance. Todos conhecer&atilde;o outros exemplos, com a Hello Kitty em primeir&iacute;ssimo lugar, mas onde se podem incluir a Pucca, a Emily, e a s&eacute;rie Monsterism de Peter Fowley. Hoje, Mizuno &eacute; autora de uma dezena de livros de mang&aacute; e ilustra&ccedil;&atilde;o, design de produtos e a sua pr&oacute;pria colec&ccedil;&atilde;o de bonecos.<\/p>\n<p>O que tornava apelativo a um largo p&uacute;blico o trabalho de Mizuno era precisamente o de mistura de g&eacute;neros: os seus desenhos partilhavam do cute ou kawaii, em japon&ecirc;s, condi&ccedil;&atilde;o sine qua non para o sucesso dessas personagens (as raparigas t&ecirc;m enormes olhos vidrados e n&atilde;o t&ecirc;m nariz ou &eacute; s&oacute; um pontinho), do sexy (possuem enormes peitos r&oacute;seos e cabeleiras fulvas), da moda mais hip (da melhor produ&ccedil;&atilde;o de Shinjuku), do grotesco (normalmente com chupa-chupas em forma de caveira na m&atilde;o, ou a injectarem drogas inomin&aacute;veis ou a vampirizar pobres e indefesos ursos)&#8230;<\/p>\n<p>O pr&oacute;ximo passo foi a da cria&ccedil;&atilde;o de mang&aacute;s. A s&eacute;rie com maior sucesso no Jap&atilde;o, e que lhe valeu aten&ccedil;&atilde;o nos E.U.A. e na Europa &#150; e r&aacute;pidas tradu&ccedil;&otilde;es &#150; foi a trilogia das adapta&ccedil;&otilde;es de famos&iacute;ssimos contos infantis: a Gata Borralheira com Cinderalla, a Pequena Sereia com Little Mermaid e Hansel &#038; Gretel. A estrutura b&aacute;sica &eacute; id&ecirc;ntica, mas Mizuno muda o ambiente, os elementos, os detalhes, e at&eacute; mesmo as ra&ccedil;as &#150; Cinderalla &eacute; uma esp&eacute;cie de zombie.<\/p>\n<p>Os nossos olhos n&atilde;o se conseguem adaptar ao choque permanente do que nos surge como um desenho simples, de linhas suaves e cores vivas, no mais in&oacute;cuo e anestesiante dos mundos publicit&aacute;rios, mas que retratam ac&ccedil;&otilde;es violent&iacute;ssimas e abjectas: canibalismo, roubo de &oacute;rg&atilde;os, drogas, sexo inter-esp&eacute;cies, v&oacute;mitos, abusos sexuais, Sado-masoquismo, entre muitas outras perversidades divertidas. Se bem que j&aacute; existissem outras autoras japonesas que trabalhavam as expectativas do que as mulheres &#147;deveriam&#148; fazer em termos de banda desenhada &#150; penso em &#147;Carol&#148; Shimoda Emiko e Milk Morizono, por exemplo -, Mizuno leva essas expectativas a um grau mais forte, por um lado pelo desenvolvimento gr&aacute;fico a que se permite, detalhado, com vinhetas constru&iacute;das at&eacute; aos mais pequenos pormenores, por outro pelas pequenas desconstru&ccedil;&otilde;es que faz desses mitos modernos.<\/p>\n<p>Este tema, da bd no feminino, infelizmente continua a ser alvo de discuss&atilde;o, como se n&atilde;o bastasse o trabalho de mulheres t&atilde;o distintas como Julie Doucet, Jill Thompson, Marjane Satrapi, Alice Geirinhas e Isabel Carvalho, das contempor&acirc;neas, para desarrumar a loja&#8230;. Como n&atilde;o poderia deixar de ser e ainda bem, Junko Mizuno tamb&eacute;m contribui para essa baralha&ccedil;&atilde;o.<br \/><split><br \/><b>Autor:Pedro Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos problemas mais fascinantes na discuss&atilde;o das artes s&atilde;o as teorias dos g&eacute;neros, isto &eacute;, de que forma elegemos certos princ&iacute;pios, caracter&iacute;sticas, elementos &#150; usualmente fazendo distin&ccedil;&otilde;es entre elementos&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1342,1467,1729],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8029"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8029"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8029\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}