{"id":8040,"date":"2006-10-07T23:00:00","date_gmt":"2006-10-07T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8040"},"modified":"2015-01-17T22:25:00","modified_gmt":"2015-01-17T23:25:00","slug":"fujisan-manga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/fujisan-manga\/","title":{"rendered":"Fujisan (Manga)"},"content":{"rendered":"<p>Discuta-se o que bem se desejar de como classificar eleva&ccedil;&otilde;es, e qual a altitude a partir da qual se diferencia um monte de uma montanha, a verdade &eacute; que tudo reside nos jogos de linguagem de cada cultura. Qualquer eleva&ccedil;&atilde;o majestosa, no complexo cultural China-Coreia-Jap&atilde;o, leva o nome de &#147;san&#148; (&#23665;), que pode ou n&atilde;o ser traduzido por &#147;montanha&#148; em portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>O Fuji (um vulc&atilde;o, na verdade) n&atilde;o &eacute; excep&ccedil;&atilde;o, e a sua evolu&ccedil;&atilde;o enquanto s&iacute;mbolo &eacute; complexa e muitas vezes mal-interpretada de fora. Seja como for, &eacute; uma das formas dos japoneses expressarem a&#12288;sua &#147;singularidade&#148;, &#147;superioridade&#148;, etc.&#12288;Cada um com o seu chauvinismo. O que nos importa &eacute; que esse sentimento nacionalista e de orgulho em rela&ccedil;&atilde;o ao Fuji levou a uma multiplicidade de express&otilde;es, po&eacute;ticas e visuais sobretudo. A pr&oacute;pria forma de escrever o seu nome &eacute; por vezes alvo de interpreta&ccedil;&otilde;es, permitindo-se escrever v&aacute;rios ideogramas chineses (ou kanji, para os japoneses) que dar&atilde;o leituras t&atilde;o diversas como &#147;n&atilde;o-dois&#148; (incompar&aacute;vel), &#147;n&atilde;o-morte&#148; (imortal), &#147;cavalheiro pr&oacute;spero&#148;, de acordo com estudiosos de Katsushika Hokusai (1760-1849), talvez o mais famoso artista de gravuras japon&ecirc;s entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Falo de Hokusai propositadamente, pois &eacute; ele o autor das sobejamente conhecidas 36 vistas do monte Fuji (na verdade, 46), longas gravuras coloridas que representam v&aacute;rias paisagens que sempre incluem o Fuji, sob v&aacute;rios climas, relacionando-o com v&aacute;rias actividades, etc. Hokusai n&atilde;o foi o primeiro a entregar-se a esses exerc&iacute;cios, nem o &uacute;ltimo, mas talvez seja &#150; ainda de acordo com muitos cr&iacute;ticos especializados &#150; como o mais conseguido, sobretudo com a sua obra mais tardia, em tr&ecirc;s volumes, e a preto-e-branco, 100 vistas do monte Fuji (na verdade, 102), que assinara com o nome de Gakyorojin Manji, ou &#147;o velho louco pelo desenho&#148;.<\/p>\n<p>Esta &eacute; uma obra incompar&aacute;vel e magn&iacute;fica, onde a inventabilidade e os jogos de composi&ccedil;&atilde;o est&atilde;o no centro das representa&ccedil;&otilde;es do Fuji, e porque a sua pr&oacute;pria organiza&ccedil;&atilde;o, ainda que n&atilde;o seja banda desenhada propriamente dita &#150; e Hokusai tinha uma s&eacute;rie de trabalhos intitulados Manga, ainda que numa acep&ccedil;&atilde;o ligeiramente diferente -, permite que utilizemos os instrumentos de an&aacute;lise de banda desenhada para o &#147;ler&#148; (um pouco as mesmas quest&otilde;es levantadas pelos romances-em-colagem de Max Ernst, ou o recente livro de Jos&eacute; Carlos Fernandes).<\/p>\n<p>Poder&aacute; parecer um abuso, sempre que se fala de qualquer livro ou obra que tenha o Fuji como ponto central, voltar a Hokusai, mas o que me despoletou essa associa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; incipiente em toda a aproxima&ccedil;&atilde;o ao livro de Akira Sas&ocirc;, &eacute; a prancha que abre o 5&ordm; cap&iacute;tulo, mostrando o reflexo do Fuji na &aacute;gua de pouca profundidade, com uma crian&ccedil;a fazendo um monte de areia parecido com o vulc&atilde;o, e ainda c&iacute;rculos conc&ecirc;ntricos de &aacute;gua. Parece ser directamente decalcado das muitas surpreendentes e finas solu&ccedil;&otilde;es de Hokusai em &#147;100 vistas&#8230;&#148;.<\/p>\n<p>Este &eacute; um volume que re&uacute;ne 6 hist&oacute;rias, de personagens movendo-se num espa&ccedil;o sempre em rela&ccedil;&atilde;o ao Fuji, quer por proximidade, contacto directo quer sob a sua influ&ecirc;ncia (h&aacute; alguns aspectos m&iacute;ticos e religiosos levantados por este livro). N&atilde;o posso deixar de indicar uma certa desilus&atilde;o com a arte de Sas&ocirc;. Faz-se no final do livro uma compara&ccedil;&atilde;o com Matsumoto, mas eu n&atilde;o poderia estar mais de desacordo. Ao passo que Matsumoto &eacute; um verdadeiro autor, no sentido em que deseja inscrever o seu gesto pessoal em toda a obra, Sas&ocirc; &eacute; um daqueles artistas relativamente t&iacute;picos que recorre a cen&aacute;rios (ou tramas) pr&eacute;-fabricados: existem publica&ccedil;&otilde;es com milhares de imagens feitas de quartos, locais de trabalho, f&aacute;bricas, ruas, transportes, m&aacute;quinas, etc., nas quais basta desenhar as personagens por cima. Vejam-se, por exemplo, as vinhetas em que a modista Rinko Kinoshita trabalha no seu atelier. Quase lembrariam t&iacute;picas bandas desenhadas institucionais, de instru&ccedil;&otilde;es industriais e fabris, mas ao passo que uma autora como Fran&ccedil;oise Mouly faz uso dessa arte pobre (n&atilde;o povera, pobre mesmo) para um fim inusitado (penso numa prancha na Raw), Sas&ocirc; surge-me como simplesmente pouco inventivo. &Agrave;s suas personagens, seja como for, falta-lhes contorno, car&aacute;cter, for&ccedil;a. Parecem meras fun&ccedil;&otilde;es narrativas, reduzidas ao seu m&iacute;nimo. Por&eacute;m, revela muito o facto de um dos s&iacute;mbolos de orgulho nacional estar aqui associado a hist&oacute;rias que rodeiam sempre a morte nos seus aspectos menos redentores: o suic&iacute;dio, os abortos sucessivos, as fugas por endividamento ou crimes.<\/p>\n<p>Talvez seja abusivo extrapolar o livro como um retrato da situa&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea, mas &eacute; como se Akira Sas&ocirc; desejasse, atrav&eacute;s de fic&ccedil;&otilde;es que se associam mas torcem uma tradi&ccedil;&atilde;o de elogio, apontar um dedo acusat&oacute;rio a problemas reais e graves do Jap&atilde;o dos nossos dias.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Pedro Vieira Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discuta-se o que bem se desejar de como classificar eleva&ccedil;&otilde;es, e qual a altitude a partir da qual se diferencia um monte de uma montanha, a verdade &eacute; que tudo&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1753,1639],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8040"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8040"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18822,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8040\/revisions\/18822"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}