{"id":8056,"date":"2006-10-07T23:00:00","date_gmt":"2006-10-07T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8056"},"modified":"2006-10-07T23:00:00","modified_gmt":"2006-10-07T23:00:00","slug":"chikiyu-no-nomu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/chikiyu-no-nomu\/","title":{"rendered":"Chikiyu no nomu"},"content":{"rendered":"<p>&#147;Engolir a terra&#148; foi publicado no final da d&eacute;cada de 60, num Jap&atilde;o que come&ccedil;ava a dar os primeiros passos seguros enquanto pot&ecirc;ncia econ&oacute;mica mundial, e onde o trauma da guerra se come&ccedil;ava a dissipar em nome de preocupa&ccedil;&otilde;es mais entregues ao futuro.<\/p>\n<p>Foi tamb&eacute;m o primeiro trabalho de Tezuka para a Big Comic, uma das primeiras revistas semanais de mang&aacute;, e que tinha como p&uacute;blico-alvo uma faixa et&aacute;ria de adolescentes mais velhos ou jovens adultos que n&atilde;o tinham ainda recebido uma aten&ccedil;&atilde;o mais complexa de Tezuka. Se bem que esta obra seja posterior a Phoenix, uma das mais longas sagas (inacabadas) do autor, esta &eacute; a primeira tentativa num estilo que de facto se reveste de contornos mais s&eacute;rios e adultos.<\/p>\n<p>Tezuka produzia cerca de 300 a 400 pranchas por m&ecirc;s, marcando assim um ritmo que seria emulado por muitos outros autores posteriores, vergava j&aacute; sob o peso de uma companhia enorme de produ&ccedil;&atilde;o e sentia a necessidade de dar conta dos tempos que vivia, tendo em conta de uma forma especial o sucesso de outro tipo de banda desenhada ent&atilde;o aparecendo no Jap&atilde;o, a gegika (cujos elementos mais sombrios, mais realistas, mais agregados a pormenores aparentemente banais do quotidiano, come&ccedil;am a invadir as p&aacute;ginas de Tezuka).<\/p>\n<p>A linha de fundo &eacute; relativamente simples, tratando-se de uma imensa vingan&ccedil;a da parte de uma mulher, que ter&aacute; como alvo n&atilde;o apenas o homem com quem sofreu directamente, mas todos os homens e, enfim, o mundo que eles constru&iacute;ram, marcado pela corrup&ccedil;&atilde;o do dinheiro, da cobi&ccedil;a, da lux&uacute;ria e do uso das mulheres como objectos, e pelas marcas da guerra e da selvajaria que ela imp&otilde;em. Como consequ&ecirc;ncia, Avaler la Terre acaba por ser tamb&eacute;m um coment&aacute;rio sobre essas paix&otilde;es baixas do g&eacute;nero humano e talvez uma chamada de aten&ccedil;&atilde;o a um Jap&atilde;o que se desligava paulatinamente das suas tradi&ccedil;&otilde;es e filosofias mais estreitas &agrave; terra&#8230;<\/p>\n<p>O tom mais s&eacute;rio a que me refiro est&aacute; apenas a um grau de diferen&ccedil;a de outros trabalhos de Tezuka, obviamente: existe ainda todo o humor gr&aacute;fico &#147;t&iacute;pico&#148; da mang&aacute; (digo-o entre aspas pois &eacute; Tezuka quem o funda), os pequenos desvios que nos estranhar&atilde;o a n&oacute;s, ocidentais, habituados a que um mesmo tom se mantenha de ponta a ponta, a figura&ccedil;&atilde;o das personagens &eacute; ligeiramente diferente dos tratamentos mais arredondados e infantis de trabalhos anteriores, mas todo o resto das estrat&eacute;gias &eacute; id&ecirc;ntico&#8230;<\/p>\n<p>Digamos que a diferen&ccedil;a fundamental reside de facto no conte&uacute;do da hist&oacute;ria e nos temas que aborda. Al&eacute;m disso, h&aacute; um curioso e oscilante ritmo dos &#147;epis&oacute;dios&#148; (que s&atilde;o nomeados a partir de elementos musicais: tema, motivo, desenvolvimento, variante, scherzo, etc.): n&atilde;o estamos perante uma s&eacute;rie como Phoenix em que cada epis&oacute;dio faz uma hist&oacute;ria completa, conjugadas as quais se atinge um sentido maior, ou como Atom, de epis&oacute;dios sucessivos e de aventura do protagonista. H&aacute; uma linha cont&iacute;nua (a vingan&ccedil;a das filhas de Z&eacute;phirus), que se vai desdobrando conforme seguimos o que se passa com os outros personagens envolvidos, mas h&aacute; por vezes desvios (como no 11&ordm; epis&oacute;dio) por hist&oacute;rias de personagens sem qualquer rela&ccedil;&atilde;o com a narrativa central, ligados a ela apenas por um t&eacute;nue fio material (a pele sint&eacute;tica, neste caso). Curiosamente, Kasuo Koike, um dos nomes mais sonantes precisamente de um estilo mais adulto e violento da mang&aacute; (sobretudo o famos&iacute;ssimo Lobo Solit&aacute;rio), criaria uma s&eacute;rie intitulada Yuki, com Kazuo Kamimura, que parte de um pressuposto semelhante aos tra&ccedil;os largos desta hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>N&atilde;o sendo uma obra t&atilde;o profunda como a da vida de Buda ou Phoenix, &eacute; ainda assim um trabalho curioso que nos permite entender como Tezuka tentava dar conta da evolu&ccedil;&atilde;o dos tempos de um modo n&atilde;o s&oacute; informado como de uma mentalidade atenta aos outros e alerta aos problemas dos excessos (do machismo, acima de tudo). Para al&eacute;m disso, a estrutura algo flutuante da narrativa n&atilde;o deixa de se mostrar irmanada a uma estrat&eacute;gia j&aacute; aqui discutida nos exemplos de Seth, Clowes ou Sapin, mas que no encerramento da saga se mostra um todo acabado.<\/p>\n<p>Nota: um problema &#8220;f&iacute;sico&#8221; &eacute; que este tankobon &#8211; livro pequeno de mang&aacute; &#8211; &eacute; de facto t&atilde;o pequeno, que as letras do texto s&atilde;o min&uacute;sculas e s&atilde;o um desafio &agrave; leitura, at&eacute; para pessoas habituadas a ler em transportes p&uacute;blicos ou apenas semi-m&iacute;opes, como eu. Assegurem-se de boas condi&ccedil;&otilde;es de ambiente e luz para evitar enxaquecas.<br \/><b>Autor:Pedro Vieira Moura<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#147;Engolir a terra&#148; foi publicado no final da d&eacute;cada de 60, num Jap&atilde;o que come&ccedil;ava a dar os primeiros passos seguros enquanto pot&ecirc;ncia econ&oacute;mica mundial, e onde o trauma da&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[1797,1796,1735],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8056"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}