{"id":8082,"date":"2007-04-20T23:00:00","date_gmt":"2007-04-20T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8082"},"modified":"2011-04-01T01:53:56","modified_gmt":"2011-04-01T01:53:56","slug":"non-non-b","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/non-non-b\/","title":{"rendered":"Non Non B\u00e2"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00abA cada um dos seus fantasmas\u00bb, podemos ler a p\u00e1ginas tantas no monumental L\u2019Ascension du Haut-Mal de David B. Mike Cartmell, numa discuss\u00e3o sobre filme experimental, \u00e9tica e autobiografia, prop\u00f5e que os fantasmas que nos assombram n\u00e3o s\u00e3o os fantasmas dos nossos antepassados \u2013 isto \u00e9, as almas transfiguradas e descarnadas do seu saco de p\u00f3 &#8211; mas antes os seus segredos, que n\u00e3o poderemos desvendar. A imagem que perdura, que deve perdurar, portanto, \u00e9 a de um indiz\u00edvel e intransmitido peso que se manter\u00e1 na terra. E a cada um de n\u00f3s, nos caber\u00e1 o quinh\u00e3o de fantasmas.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9478\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/manga\/non-non-b\/attachment\/1-188\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9478\" title=\"1\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1184.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1184.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1184-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Shigeru Mizuki \u00e9 um dos autores mais famosos de mang\u00e1 e um dos respons\u00e1veis pelo seu recrudescimento nas d\u00e9cadas de 50 e 60, ao lado de Tezuka. Diferentemente de Tezuka, cuja for\u00e7a, explora\u00e7\u00e3o e sucesso lhe permitiram dedicar-se a todo um rol diverso de temas e estrat\u00e9gias, de p\u00fablicos visados e de formas, Mizuki \u00e9 associado acima de tudo a hist\u00f3rias que envolvem os yokai, palavra que aprendemos de imediato ao ler os seus livros: pequenas ou grandes \u201ccriaturas sobrenaturais que habitam o universo dos homens\u201d (cito esta edi\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Dessas que pululam nos contos repescados por Lafcadio Hearn, repopulando o imagin\u00e1rio japon\u00eas, do qual algumas hist\u00f3rias de Hanawa Kazuichi e a A Viagem de Shihiro, de Miyazaki, s\u00e3o apenas avatares mais recentes e famosos fora do seu pa\u00eds. Essas criaturas tamb\u00e9m costumavam viver nos bosques e aldeias portuguesas, como os olhapins e os trasgos e os biobardos, mas somente as mouras encantadas e pouco mais parece terem sobrevivido, se tanto&#8230; \u00c9 pela mang\u00e1 e pelo anime que essas criaturas ganharam uma nova vida, uma nova presen\u00e7a, e se mantiveram \u201cvivas\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui um movimento duplo. Em primeiro lugar o de resgate e conserva\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio que corria o risco de se perder, face \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do novo Jap\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 moderno como modernista e sem tempo para um passado. \u00c9 costume dizer-se, os turistas de todos os paladares, que o pa\u00eds que visitam e\/ou que os fascina \u00e9 feito de contradi\u00e7\u00f5es. Qual o n\u00e3o \u00e9? A quest\u00e3o est\u00e1 em entender quais das contradi\u00e7\u00f5es estar\u00e3o em vigor, a exercer por assim dizer o seu poder nesse momento dado. Mizuki explora as do seu tempo e circunst\u00e2ncia (as da sua primeira adolesc\u00eancia, forma\u00e7\u00e3o de aptid\u00f5es, crescimento interno). A outra face desse movimento \u00e9 futura, a busca por um certo grau de espiritualidade. Poder\u00e1 ser ch\u00e3 ou xam\u00e2nica, mas por isso mesmo mais humana, de f\u00e9 no propriamente humano, e n\u00e3o uma delega\u00e7\u00e3o no portentoso. Um sobrenatural que pende mais para o natural (no homem) do que no sobre-. Tezuka tamb\u00e9m partilha em alguns dos seus t\u00edtulos essa vontade moralizante (num sentido positivo, construtivo, repito, espiritual, do termo), em F\u00e9nix ou em Demain les oiseaux.<\/p>\n<p>Em Nonnonb\u00e2, pela m\u00e3o do autor-protagonista, vemos o seu mundo infantil a desfazer-se quer pelo seu crescimento individual, quer pelas rela\u00e7\u00f5es que tem com os seus familiares e amigos, quer ainda pelas hist\u00f3rias contadas pela velhota que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, uma enciclop\u00e9dia viva do sobrenatural local, sobretudo os yokai. Aos poucos, Shig\u00e9ru vai familiarizando-se com alguns desses yokai, at\u00e9 mesmo chegar a tomar banho com um! N\u00e3o nutre propriamente amizade com eles, mas antes uma estranha cumplicidade de aprendizagem. Essas criaturas mostram-se t\u00e3o s\u00e1bias como nenhuma outra personagem em seu torno. Isso lan\u00e7a Shig\u00e9ru num mundo de fronteira, entre o mundo natural e o sobrenatural, entre a vig\u00edlia e o sonho, at\u00e9 as d\u00favidas se imiscu\u00edrem durante o mais banal dos seus actos. No fundo, \u00e9 isso o que Shigeru Mizuki, o autor, nos quer dar a entender. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de cren\u00e7a \u2013 se bem que talvez se ela existir, mal n\u00e3o trar\u00e1 \u2013 mas sim de disponibilidade em escutar e aprender as li\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de experi\u00eancias diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A nova fam\u00edlia que se v\u00ea a mudar para a sua aldeia \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do movimento contr\u00e1rio, a arrog\u00e2ncia dos forasteiros iluminados pela ci\u00eancia menosprezando o modo de vida que at\u00e9 ali vingara no local que agora ocupam. Mais, o crime deles ganha contornos horrorosos, se bem que mitigados pelo fora de cena. O pre\u00e7o \u00e9 esperado.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9479\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/manga\/non-non-b\/attachment\/2-178\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9479\" title=\"2\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2174.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2174.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2174-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tal como os c\u00edrculos infernais em Dante ou noutras tradi\u00e7\u00f5es menos can\u00f3nicas do Cristianismo, tamb\u00e9m no entendimento da vida para al\u00e9m da morte da China, do Jap\u00e3o e da Coreia se reservam \u201cas nove terras da serenidade\u201d para aqueles que merecem um castigo pelos pecados feitos na Terra. Se bem que no Shinto\u00edsmo a ideia de \u201cpecado\u201d n\u00e3o possa ser de forma alguma encontrada, no Cristianismo ser conjuntamente com a \u201cculpa\u201d o peso m\u00e1ximo do crente, e no Budismo existirem ecos semelhantes, no Jap\u00e3o todas estas ideias se confundem sobretudo quando se encontram na fic\u00e7\u00e3o. Mizuki explora-a essa realidade para criar efeitos de grandes pequenas como\u00e7\u00f5es, como a morte de Chigusa, os medos tornados palp\u00e1veis em v\u00e1rios pontos da narrativa, o castigo da fam\u00edlia forasteira, ou noutras hist\u00f3rias anteriores, sobretudo na sua famosa s\u00e9rie (tornada tamb\u00e9m s\u00e9rie de anima\u00e7\u00e3o) Ge Ge Ge no Kitaro. Esses c\u00edrculos podem tamb\u00e9m se abrir a ambientes mais festivos, de conv\u00edvio, como este exemplo da imagem.<\/p>\n<p>A pequenina Miwa, como explica Nonnonb\u00e2, desconhece o mundo e por isso vive mais perto da natureza. Se bem que a discuss\u00e3o e rivalidade eterna entre a natureza e educa\u00e7\u00e3o seja uma realidade que aos poucos se vai ultrapassando, ela n\u00e3o deixa de ainda fazer sentido. F\u00f4ssemos n\u00f3s mais sujeitos \u00e0 naturalidade, mesmo na sociedade e na cultura, evitar\u00edamos preconceitos rid\u00edculos. Como por exemplo, que a banda desenhada n\u00e3o nos deixa pensar, que s\u00f3 serve para isto ou aquilo, que a mang\u00e1 toda n\u00e3o presta porque \u00e9 \u201cindustrial\u201d. Para se ser verdadeiramente adulto, um p\u00fablico adulto, \u00e9 preciso n\u00e3o se fingir ser adulto atrav\u00e9s de uma grossa patina de seriedade e erudi\u00e7\u00e3o, mas s\u00ea-lo com a abertura poss\u00edvel. S\u00f3 passeando com os dedos e os olhos e os cora\u00e7\u00f5es sobre estas obras se descobrir\u00e1 uma verdade, e o ter dado esse passeio j\u00e1 \u00e9 meio-caminho andado para entrar nessoutra natureza.<\/p>\n<p><strong>Autor: Pedro Vieira Moura<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00abA cada um dos seus fantasmas\u00bb, podemos ler a p\u00e1ginas tantas no monumental L\u2019Ascension du Haut-Mal de David B. 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