{"id":8088,"date":"2007-05-06T23:00:00","date_gmt":"2007-05-06T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8088"},"modified":"2015-06-30T20:57:26","modified_gmt":"2015-06-30T21:57:26","slug":"kafka-beira-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cultu\/kafka-beira-mar\/","title":{"rendered":"Kafka &agrave; beira-mar"},"content":{"rendered":"<p><i>&#8220;Ergues as m&atilde;os diante dos teus olhos, mas n&atilde;o tens luz suficiente para ver. Est&aacute; demasiado escuro. Tanto dentro como fora de ti.&#8221;<\/i><\/p>\n<p>&Eacute; um livro sobre a condi&ccedil;&atilde;o humana e a sua liberdade. Liberdade de nos impormos a nossa liberdade, fazendo dela uma lei. Como Kafka Tamura quando decide fugir de casa no dia do seu anivers&aacute;rio de quinze anos &agrave; procura de uma liberdade para a qual tinha trabalhado desde que se conhecera. Com um pai exc&ecirc;ntrico que vive num mundo de professias assombrosas com as suas esculturas e um passado povoado pelas reminisc&ecirc;ncias quase fantasmag&oacute;ricas da sua m&atilde;e que o deixou com a irm&atilde; aos quatro anos. A sua exist&ecirc;ncia em Nakano???, onde crescera, estava a atingir os limites do supor&aacute;vel e por isso partir parecia uma boa solu&ccedil;&atilde;o para o recome&ccedil;o de uma constru&ccedil;&atilde;o do mundo a que pudesse chamar exclusivamente sua e para a evas&atilde;o &agrave;s leis e aos limites permanentemente impostos pela sociedade e pelas expectativas individuais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11043.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19919\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11043.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/11043-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Takamatsu, soava como um bom destino, estrategicamente falando. Para al&eacute;m da compontente aleat&oacute;ria da escolha que descartava eventuais procuras policiais, Tamura conhecia uma pequena biblioteca privada, muito acolhedora, onde pretendia passar o resto da vida que avistava para l&aacute; dos seus quize anos. S&oacute; que nada era t&atilde;o simples e afinal, n&atilde;o possuia tanta aleatoriedade como poderia aparentar&#133; Editado pela CasaDasLetras, tradu&ccedil;&atilde;o de Maria Jo&atilde;o Louren&ccedil;o<\/p>\n<p>Paralelamente, &eacute;-nos dada a conhecer a hist&oacute;ria de Nakata, o velho que fala com gatos e faz ca&iacute;r sanguessugas e peixes do c&eacute;u. A sua hist&oacute;ria &eacute;-nos revelada como sendo uma crian&ccedil;a que cresce afectada por um misterioso incidente na sua inf&acirc;ncia durante o per&iacute;odo de guerra, incidente durante o qual todos os colegas de turma desmaiam simultaneamente excepto a professora que os levou num passeio pela montanha. Semi-renegado pelos pais, vive a sua vida em ostraciza&ccedil;&atilde;o de forma simples e nunca tendo a capacidade de sentir sentimentos negativo como a frustra&ccedil;&atilde;o ou o &oacute;dio e atinge a velhice analfabeto e desempregado, sustentando-se com a m&iacute;sera pens&atilde;o do governo e o part-time de encontrar gatos, uma vez que consegue falar com eles.<\/p>\n<p>A partir desta base de personagens resta todo o inv&oacute;lucro que envolve o mundo real no universo do sonho e o mundo carnal nas entranhas do esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Tamura envolve-se num conlifo edipiano profetizado pelo pai. Esse conflito &eacute; desenvolvido no pano de fundo de uma refer&ecirc;ncia expl&iacute;cita ao Genji Monogatari de Murasaki Shikibu. A alus&atilde;o a um esp&iacute;rito gerado em vida pela impetuosidade do sentimento reveste toda a hist&oacute;ria de ancestrais alus&otilde;es liter&aacute;rias, refor&ccedil;adas pelos reflexos introspectivos de Oshima, seu colega e princ&iacute;pal protector e confidente durante o ref&uacute;gio em Shikoku.<\/p>\n<p>A obra reveste-se de uma constante significa&ccedil;&atilde;o bipolar entre a ideia de liberdade e de responsabilidade. A ideia de sonho e de pris&atilde;o. Quando Tamura decide sonhar ele torna-se absolutamente respons&aacute;vel pelas consequ&ecirc;ncias (tanto abstractas como concretas) dos seus sonhos e entre a sua vontade e a sua fuga existe a descoberta do mundo. Este livro parece aproximar-se mais do surrealismo de Kobo do que do realismo s&oacute;lido de Mishima ou Tanizaki.<br \/>\nMurakami utiliza uma narra&ccedil;&atilde;o de tom ora naturalista, ora surreal, criando uma realidade de s&iacute;mbolos desconcertante.<\/p>\n<p>A alus&atilde;o a Kafka &eacute; evidentemente volunt&aacute;ria, fazendo a representa&ccedil;&atilde;o da forma como as personagens se sentem impotentes na sua condi&ccedil;&atilde;o, presas no seu corpo, v&iacute;timas da irregularidade do mundo e\/ou de um suposto destino (princilamente por parte da personagem de Saeki-San). Para al&eacute;m disso, Kafka significa &#8220;corvo&#8221; em checo, nome do alter-ego de Tamura a quem ele recorre em momentos mais fulcrais da hist&oacute;ria.<br \/>Por entre tudo isto, existe a sempre aliciante tem&aacute;tica &#150; do ponto de vista medi&aacute;tico &#8211; das descobertas sexuais de Tamura, que de resto n&atilde;o me parecem ter um principal destaque, enquadram-se na sua descoberta geral de si pr&oacute;prio e do que o rodeia, com naturalidade.<\/p>\n<p>A erudi&ccedil;&atilde;o de Murakami, n&atilde;o deixa, no entanto, de interfir na inten&ccedil;&atilde;o do autor. Exemplo disso ser&aacute;, possivelmente, o camionista que ajuda Nakata a chegar a Shikoku, que &eacute; representativo de uma personagem tipo de uma certa classe menos priveligiada e com um total desinteresse pelo que o rodeia mas que, no entanto, parece ter demasiada facilidade em ceder &agrave; compreens&atilde;o intelectual do mundo &#150; o que de resto, me parece uma vis&atilde;o demasiado optimista e idealizada de Murakami. Uma personagem menos conseguida ou ent&atilde;o um refor&ccedil;o na projec&ccedil;&atilde;o da personagem de Nakata pela contraposi&ccedil;&atilde;o. Por exemplo, Nakata n&atilde;o sabia ler e por isso nunca tinha entrado numa biblioteca, mas o que &eacute; certo &eacute; que grande parte das pessoas sem problemas de alfabetiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o o fazem de qualquer maneira.<\/p>\n<p>Nakata era desprovido de potencial cognitivo mas a sua vontade de mudar o mundo e de encarar a vida de uma maneira &eacute;tica, positiva, justa e com valores s&oacute;lidos conferia-lhe o patamar de pessoa &uacute;nica e especial. Porque afinal, quantos n&atilde;o possuem as maiores capacidades cognitivas do mundo e nunca mudam nada? Quantos n&atilde;o se recostam &agrave; conformidade e &agrave; banalidade ainda que apetrechados dos melhores ve&iacute;culos para reverter esse processo? Julgar ou moralizar de uma forma casual e ignorante confere uma falsa sensa&ccedil;&atilde;o de preenchimento &agrave;s pessoas que n&atilde;o sabem lidar com algo real para al&eacute;m do seu vazio interior. Em nenhum momento Oshima emite uma opini&atilde;o moralizadora. No fim do livro ficam perguntas por responder e acontecimentos por interpretar.<\/p>\n<p>A base do entendimento espiritual efectivo percorre a narra&ccedil;&atilde;o em detrimento de permanentes julgamentos in&oacute;cuos. Acho que &eacute; isto que transp&otilde;e as p&aacute;ginas deste livro: algo que est&aacute; para al&eacute;m da pr&oacute;pria narrativa e que nos involve com a sua imensa e permanente met&aacute;fora. &Eacute; isso que torna o livro t&atilde;o intimista e t&atilde;o pessoal, o leitor &eacute; convidado a transpor parte de si para o abrigo desta tempestade de s&iacute;mbolos.<\/p>\n<p><b>Escrito por: Sara Costa<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ergues as m&atilde;os diante dos teus olhos, mas n&atilde;o tens luz suficiente para ver. Est&aacute; demasiado escuro. 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