{"id":8140,"date":"2007-10-27T23:00:00","date_gmt":"2007-10-27T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8140"},"modified":"2007-10-27T23:00:00","modified_gmt":"2007-10-27T23:00:00","slug":"atravs-da-vidraa-natsume-soseki","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/cultu\/atravs-da-vidraa-natsume-soseki\/","title":{"rendered":"Atrav&eacute;s da Vidra&ccedil;a &#8211; Natsume Soseki"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo dizia-me outro dia que Dostoi&eacute;vski n&atilde;o viveu o suficiente para come&ccedil;ar a escrever mal. Ele dizia-me que um escritor quando come&ccedil;a a envelhecer come&ccedil;a a entrar em p&acirc;nico ao aperceber-se da proximidade da morte e quer deitar &#145;tudo para fora&#146; como calhar com o intuito de se edificar na sua totalidade, esculpindo sofregamente a sua imortalidade, escrevendo livros mais curtos, menos trabalhados e em maior s&eacute;rie. Longe de mim afirmar que &#147;Atrav&eacute;s da Vidra&ccedil;a&#148; &eacute; um mau livro ou uma m&aacute; escrita, mas enquadra-se na consci&ecirc;ncia da proximidade da morte que despertara em Soseki em 1915, um ano antes do seu falecimento. O livro &eacute; uma compila&ccedil;&atilde;o de uma s&eacute;rie de descri&ccedil;&otilde;es de epis&oacute;dios da vida de Soseki e das suas mem&oacute;rias naquilo que se podem considerar 39 ensaios. Quando remota &agrave; sua inf&acirc;ncia faz o retrato de um Jap&atilde;o em movimento e em reconstru&ccedil;&atilde;o (em pleno per&iacute;odo Meiji). <\/p>\n<p>Para quem n&atilde;o conhece o autor, Natsum&eacute; Soseki &eacute; um marco da literatura desta era de moderniza&ccedil;&atilde;o japonesa, p&oacute;s Per&iacute;odo Edo, que devido &agrave; sua enorme import&acirc;ncia cultural e para que o povo japon&ecirc;s n&atilde;o se esquecesse do seu contributo liter&aacute;rio ficou imortalizado numa nota de 1000 ienes. &Eacute; considerado, juntamente com Mori Ogai, parte de um c&acirc;none liter&aacute;rio do universo japon&ecirc;s que busca uma certa ocidentaliza&ccedil;&atilde;o que se poderia dizer &#145;em  voga&#146; nesta altura.<\/p>\n<p>&#147;Atrav&eacute;s da Vidra&ccedil;a&#148; &eacute; um livro onde perpassa uma imensa melancolia e uma nostalgia latente. Deixa-nos percepcionar algumas viv&ecirc;ncias do autor mas n&atilde;o nos deixa penetrar em profundidade na sua personalidade. O que &eacute; curioso &eacute; que me parece um livro que n&atilde;o se adequar&aacute; possivelmente a um primeiro contacto com a escrita do autor mas, no entanto, &eacute; o &uacute;nico livro de Soseki alguma vez traduzido em portugu&ecirc;s e posto &agrave; venda a circular em Portugal (pela editora USUS numa edi&ccedil;&atilde;o de 1993). A escolha parece aleat&oacute;ria, pois muitas das grandes e c&eacute;lebres obras do autor permanecem-nos inacess&iacute;veis tais como Watashi wa Neko de Aru (Eu sou um gato); Sorekara (E Depois, 1909) Bungaku Hyoron (Cr&iacute;tica Liter&aacute;ria, 1909), etc.<\/p>\n<p>Neste livro, as suas reflex&otilde;es passam desde coisas mais tr&aacute;gicas, como um assalto &agrave; casa do seu pai; at&eacute; epis&oacute;dios mais humor&iacute;sticos ou quotidianos a recorda&ccedil;&atilde;o dos seus irm&atilde;os a planearem encontros com gueixas, as suas irm&atilde;s que tinham que se levantar de madrugada para irem assistir ao teatro Kabuki, e a forma como a paisagem do seu bairro se foi transformando ao longo da sua vida (num per&iacute;odo de profunda transforma&ccedil;&atilde;o), as prendas dos leitores chatos, a vez em que comprou um manuscrito de um autor chin&ecirc;s a um colega mas que depois descobriu que aquilo n&atilde;o pertencia ao colega. Enfim, Soseki n&atilde;o se demonstra revoltado, n&atilde;o lan&ccedil;a farpas como outrora em obras mais antigas, simplesmente se deixa invadir por um sentimento taciturno derivado da sua doen&ccedil;a &#150; uma &uacute;lcera no est&ocirc;mago &#150; que acaba por surgir como a evid&ecirc;ncia da morte. De entre alguns trechos, os seus tormentos e as perturba&ccedil;&otilde;es da sua sensibilidade e sabedoria profunda de quem compreende que h&aacute; quest&otilde;es que nunca ser&atilde;o totalmente claras:<\/p>\n<p>&#147;Mas poderei dizer que os outros s&atilde;o todos uns refinados e mentirosos e, desde logo, n&atilde;o prestar a m&iacute;nima aten&ccedil;&atilde;o nem dar qualquer cr&eacute;dito &agrave; sua palavra? Poderei mesmo reter o contr&aacute;rio do que me dizem, pensar que esse acto &eacute; inteligente e encontrar a&iacute; um pouco de paz? Arrisco-me a interpretar mal os outros, no entanto, &eacute; preciso que esteja preparado desde o in&iacute;cio para cometer este tipo de erro terr&iacute;vel. &#133; Essa expectativa &eacute; necess&aacute;ria para toda a gente e, de resto, todos a p&otilde;em em pr&aacute;tica. Por&eacute;m, ser&aacute; que caminhamos sem qualquer risco como sobre uma linha recta e delicada, onde nenhum erro &eacute; permitido, em perfeito acordo com o outro? &#133; Assim sendo umas vezes sou enganado pelo outro, outras sou eu que o engano e ainda mais raramente acontece consider&aacute;-lo na sua justa medida&#148;<br \/><b>Autor:Sara F. Costa<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo dizia-me outro dia que Dostoi&eacute;vski n&atilde;o viveu o suficiente para come&ccedil;ar a escrever mal. Ele dizia-me que um escritor quando come&ccedil;a a envelhecer come&ccedil;a a entrar em p&acirc;nico&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,10],"tags":[1485,1936,1934],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8140"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8140"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8140\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}