{"id":8231,"date":"2008-12-26T00:00:00","date_gmt":"2008-12-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8231"},"modified":"2016-11-28T23:55:21","modified_gmt":"2016-11-29T00:55:21","slug":"eleki-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/music\/eleki-parte-i\/","title":{"rendered":"Eleki &#8211; Parte I"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, o pa\u00eds do sol nascente tem oferecido ao ocidente &laquo;b&aacute;rbaro&raquo; alguma da m\u00fasica psicad\u00e9lica mais inovadora, criativa e experimental jamais congeminada, fruto de uma obsessiva e met\u00f3dica explora\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria sonora. O Jap\u00e3o teve, sem sombra de d\u00favidas, um papel significativo na revitaliza\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero, e grupos como Acid Mothers Temple, Kousokuya, Ghost, Suishou No Fune, Maher Shalal Hash Baz, ou indi\u00edduos como Kawabata Makoto, Keiji Haino, Kan Mikami, Jutok Kaneko, e Asahito Nanjo, para nomear apenas alguns, s\u00e3o hoje lugares-comuns quando se fala de m\u00fasica psicad\u00e9lica num mundo globalizado, onde a Internet permite o f\u00e1cil acesso a m\u00fasica dos quatro cantos de mundo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1976.jpg\" alt=\"1\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18883\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1976.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1976-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Mas esta contribui\u00e7\u00e3o n&atilde;o deixa de criar alguma perplexidade para aqueles mais informados quanto &agrave;s posi\u00e7\u00f5es conservadoras em rela\u00e7\u00e3o ao consumo de subst\u00e2ncias do governo japon\u00eas, da popula\u00e7\u00e3o em geral, e mesmo de algumas das figuras de proa do movimento psicad\u00e9lico nip\u00f3nico. \u00c9 que enquanto a m\u00fasica psicad\u00e9lica ocidental se encontra indelevelmente associada ao consumo de drogas e a estados alterados de consci&ecirc;ncia, no oriente as coisas foram e s\u00e3o um pouco diferentes. Os m\u00fasicos japoneses procuram essencialmente criar e produzir m\u00fasica que tenha um efeito no ouvinte semelhante \u00e1quele induzido por psicotr\u00f3picos, e para atingir este fim o composto musical tem vindo a ser refinado ao longo dos tempos e das gera\u00e7\u00f5es, raz\u00e3o pela qual ser\u00e1 leg\u00edtimo perguntarmos &#8220;mas afinal onde \u00e9 que tudo come\u00e7ou?&#8221;.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da m\u00fasica psicad\u00e9lica no Jap\u00e3o encontra-se intimamente conectada a dois elementos basilares: a ocidentaliza\u00e7\u00e3o decorrente do per\u00edodo de ocupa\u00e7\u00e3o pelas for\u00e7as armadas americanas e o &#8220;milagre&#8221; econ\u00f3mico operado no p\u00f3s-guerra, bastante semelhante ao wirstschaftswunder alem\u00e3o. As novas gera\u00e7\u00f5es japonesas ansiosas por experimentar um novo mundo trazido na bagagem pelos soldados do novo mundo, acolheram o rock&#8217;n&#8217;roll de bra\u00e7os abertos, mas inflamados pela sua idiossincr\u00e1tica cultura milenar, fundada em s\u00e9culos de isola\u00e7\u00e3o auto-imposta, assimilaram, metabolizaram e expeliram dois novos g\u00e9neros que, embora tendo ra\u00edzes ocidentais, s\u00e3o na sua ess\u00eancia japoneses: o &#8220;eleki&#8221; e o &#8220;group sounds&#8221;.<\/p>\n<p>Se bem que a maior parte dos m\u00fasicos contempor\u00e2neos supracitados descarte ambos os fen\u00f3menos como irrelevantes e perfeitamente descart\u00e1veis, em conson\u00e2ncia com ambiente consumista e superficial em que floresceram, quando o espectro de an\u00e1lise \u00e9 reduzido &agrave; cultura popular e de massas, o &#8220;eleki&#8221; e o &#8220;group sounds&#8221; constituem os antecedentes mais relevantes do psicadelismo nip\u00f3nico. E justi\u00e7a lhes seja feita. Se no plano musical n\u00e3o t\u00eam a oferecer nada de novo, estes fen\u00f3menos s\u00e3o um verdadeiro tesouro sociol\u00f3gico do Jap\u00e3o moderno, um registo inequ\u00edvoco da forma como os seus habitantes lidam com a importa\u00e7\u00e3o de cultura, fazendo-a parecer ainda mais original do que o pr&oacute;prio original, e criando algo completamente novo, &uacute;nico e refrescante atrav&eacute;s da c&oacute;pia descarada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2614.jpg\" alt=\"2\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18884\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2614.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2614-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Mas retomemos a nossa pequena hist\u00f3ria. Durante os anos da ressurg&ecirc;ncia do Jap&atilde;o como pot&ecirc;ncia econ&oacute;mica e financeira, com uma popula&ccedil;&atilde;o endinheirada que se podia dar ao luxo de comprar desde os carros e c&acirc;maras fotogr&aacute;ficas de origem nacional, at&eacute; &agrave;s guitarras el&eacute;ctricas de origem ocidental, o rock&#8217;n&#8217;roll atravessava um per&iacute;odo cr&iacute;tico, com o afastamento de cena de Elvis devido ao servi&ccedil;o militar obrigat&oacute;rio, o encarceramento de Chuck Berry, e a queda em desgra&ccedil;a de Jerry Lee Lewis. Neste contexto de descren&ccedil;a nas figuras maiores do rock, o mundo em geral, e o Jap&atilde;o em particular, viraram-se para os grupos instrumentais, que faziam uso e abuso das nov&iacute;ssimas guitarras el&eacute;ctricas sa&iacute;das dos est&aacute;bulos da Fender, da Gibson, e da Mosrite.<\/p>\n<p>Os primeiros a atingirem o estatuto estelar no oriente foram precisamente os The Shadows, que acabariam por ver &#8220;Apache&#8221;, um original de Hank Marvin &#038; Co., ser revisitado por Jimmie Tokita &#038; His Mountain Playboys e dar origem a uma das maiores obsess&otilde;es musicais japonesas: o &#8220;eleki&#8221;. O fen&oacute;meno &#8220;eleki&#8221;, que literalmente significa &#8220;el&eacute;ctrico&#8221;, atingiu o Jap\u00e3o em finais dos anos 1950, alterando por completo a sua topon&iacute;mia musical, at&eacute; ent&atilde;o dominada pela m\u00fasica tradicional e por baladas em formato de in\u00f3cuo xarope para a tosse.<\/p>\n<p>Algo de novo se perfilhava no horizonte. Algo de inquietante mas ao mesmo tempo moderno e revolucion&aacute;rio. A nomenclatura adoptada traduzia os elementos dessa nova m&uacute;sica: a reifica&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero instrumental, relegando para segundo plano as letras melosas de outrora, e a glorifica&ccedil;&atilde;o da guitarra el&eacute;ctrica como ferramenta indispens&aacute;vel ao labor do m&uacute;sico moderno. Numa &uacute;nica palavra &#8220;eleki&#8221;.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3561.jpg\" alt=\"3\" width=\"640\" height=\"290\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18882\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3561.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3561-300x136.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Os The Shadows atingiram os p&iacute;ncaros das tabelas de vendas um pouco por todo o mundo, com temas como &#8220;FBI&#8221;, &#8220;Frightened City&#8221; ou &#8220;Kon-Tiki&#8221;, popularizando o instrumental de guitarra como panaceia universal para o rock moribundo. A sua recep&ccedil;&atilde;o no Jap&atilde;o n&atilde;o foi menos entusi&aacute;stica do que noutras partes do globo, mas apesar do seu sucesso foi um quarteto origin&aacute;rio de Tacoma que cativou o imagin&aacute;rio japon&ecirc;s de tal forma que, ainda hoje em dia, gozam de um culto not&aacute;vel naquele pa&iacute;s: os The Ventures. Os motivos por detr&aacute;s desta adula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&atilde;o assim t&atilde;o estranhos ou bizarros a um olhar mais cuidado. Quatro figuras inexpressivas e im&oacute;veis num palco cuidadosamente minimalista, com uma execu&ccedil;&atilde;o maquinal ultra-eficiente, os The Ventures antecipavam em v&aacute;rios aspectos os germ&acirc;nicos Kraftwerk, e inflamavam os cora&ccedil;&otilde;es dos perfeccionistas japoneses, os quais foram dos poucos povos onde as obsessivas pol&iacute;ticas da qualidade de Juran ou Deming obtiveram sucesso.<\/p>\n<p>A adora&ccedil;&atilde;o que foi votada aos The Ventures come\u00e7ou durante uma visita ao Jap\u00e3o em 1962, como grupo de suporte, e atingiu o seu auge durante uma digress\u00e3o como cabe\u00e7as de cartaz em 1965, a qual ficou registada para a posteridade no \u00e1lbum &#8220;Live in Japan 1965&#8221;.<\/p>\n<p>Continuar a ler a segunda parte do artigo [<a href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/music\/eleki-parte-ii\/\">Eleki &#8211; parte II<\/a>].<\/p>\n<p><b>Escrito por: Henrique Vicente<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, o pa\u00eds do sol nascente tem oferecido ao ocidente &laquo;b&aacute;rbaro&raquo; alguma da m\u00fasica psicad\u00e9lica mais inovadora, criativa e experimental jamais congeminada, fruto de uma obsessiva&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18882,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,9],"tags":[2172,2170,2171,2175,2174,2173],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8231"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8231"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23223,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8231\/revisions\/23223"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}