{"id":8238,"date":"2009-01-25T00:00:00","date_gmt":"2009-01-25T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8238"},"modified":"2011-08-23T14:52:02","modified_gmt":"2011-08-23T13:52:02","slug":"red-colored-elegy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/red-colored-elegy\/","title":{"rendered":"Red Colored Elegy"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma adivinha aned\u00f3tica muito conhecida na l\u00edngua inglesa e bastante antiga: \u201co que \u00e9 preto-e-branco e vermelho a toda a volta?\u201d. A resposta \u00e9 \u201cos jornais\u201d, e a raz\u00e3o \u00e9 sobretudo sentida por se pensar naqueles jornais sensacionalistas \u2013 os \u201ctabl\u00f3ides\u201d \u2013 que apostam nas mais b\u00e1sicas e por vezes abjectas emo\u00e7\u00f5es do ser humano, a sua curiosidade m\u00f3rbida e indiscreta, um abusivo interesse pelo denominador mais baixo&#8230; O sangue dos crimes passionais ou violentos que \u201cpintam\u201d os jornais.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9056\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/red-colored-elegy\/attachment\/1-119\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9056\" title=\"1\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1115.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1115.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1115-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><br \/>\nOs dois livros de banda desenhada japonesa que discutiremos de seguida s\u00e3o a preto-e-branco e t\u00eam vermelho toda a volta (*). Por\u00e9m, n\u00e3o poderiam estar mais longe dessa atitude mesquinha e d\u00e9bil que se adivinha na adivinha dos jornais&#8230; O seu preto-e-branco n\u00e3o suja as m\u00e3os e explorado de um modo tentado e pensado em todas as suas dimens\u00f5es. E o vermelho surge antes como uma met\u00e1fora poderosa das emo\u00e7\u00f5es suscitadas e retratadas, e n\u00e3o um efectivo derrame passional.<\/p>\n<p>O vermelho \u00e9, no Jap\u00e3o, uma cor auspiciosa e os s\u00edmbolos relacionados com as cores s\u00e3o levados mais a s\u00e9rio do que nas nossas sociedades, c\u00ednicas, afastadas e desconfiadas de certas tradi\u00e7\u00f5es, cegas a outras que teimam em se manter&#8230; Repare-se como o vermelho \u00e9 a cor do sol que est\u00e1 no centro da bandeira desse pa\u00eds. Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o esteja igualmente associada tamb\u00e9m a emo\u00e7\u00f5es fortes, ao rubor dos rostos, ao sangue que pode correr&#8230; H\u00e1, em ambos os livros, emo\u00e7\u00f5es, digamos, \u00e0 flor da pele, mas em que a sua express\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 de um modo directo, bomb\u00e1stico, cru, mas antes desfila \u00e0 nossa frente com um ritmo que parece ser contradit\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>O primeiro livro \u00e9 de Seiichi Hayashi, criado entre 1970 e 1971. Est\u00e1 muito pr\u00f3ximo da cria\u00e7\u00e3o do underground da sua \u00e9poca. Poder\u00edamos dizer que faz parte daquela tradi\u00e7\u00e3o que responderia pelo nome de gekiga, mas os seus elementos e ambiente, mais po\u00e9tico, menos centrado numa narrativa linear e coesa, coloc\u00e1-lo-\u00e1 junto \u00e0 obra de Suzuki ou de Abe. O t\u00edtulo original utiliza a transcri\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas \u201celegy\u201d, pelo que revela o interesse do autor em se afastar das tradi\u00e7\u00f5es japonesas. Se o fizesse, procuraria uma palavra que correspondesse \u00e0s formas po\u00e9ticas aut\u00f3ctones, e esta palavra parece indicar um interesse pelo estranhamento que permite a mistura de refer\u00eancias culturais (toda a obra est\u00e1 semeada delas).<\/p>\n<p>Ambas as informa\u00e7\u00f5es colocam Hayashi portanto no centro de um grupo de artistas que procuravam fabricar uma nova tradi\u00e7\u00e3o no interior da mang\u00e1 moderna. O reino de maior import\u00e2ncia para este livro \u00e9 a elipse: estas s\u00e3o vincadas em termos narrativos e visuais no curso de toda a obra, fazendo com que este livro seja mais cheio de \u201cn\u00e3o-ditos\u201d do que de afirma\u00e7\u00f5es e forma\u00e7\u00f5es concretas e decididas. H\u00e1 um momento, j\u00e1 no fim do arco da rela\u00e7\u00e3o dos protagonistas, um jovem artista que trabalha em anima\u00e7\u00e3o mas sem grande fortuna, Ichiro, e a tamb\u00e9m artista Sachiko, que prefere manter-se ao lado do seu amante em vez de procurar uma sa\u00edda mais comum e socialmente segura (os casamentos arranjados), h\u00e1 um momento, diz\u00edamos, em que Ichiro, num tremendo desejo de esquecer essa paix\u00e3o e fonte de confus\u00e3o, repete incessantemente, \u201ctenho de desenhar\u201d. E, na verdade, Red Colored Elegy parece estar antes sob o signo do desenho, da puls\u00e3o de deixar uma inscri\u00e7\u00e3o no papel do que sob o des\u00edgnio de uma mais estruturada raz\u00e3o de narrativizar. Criam-se os desenhos e \u00e9 nos seus intervalos que vai fluindo o mel do seu sentido \u00faltimo, n\u00e3o verbaliz\u00e1vel.<\/p>\n<p>O trabalho na ind\u00fastria da anima\u00e7\u00e3o do autor torna-se n\u00e3o apenas um elemento a ser integrado na hist\u00f3ria, como parte desta autobiografia ou auto-fic\u00e7\u00e3o (n\u00e3o h\u00e1 maneira nem informa\u00e7\u00f5es suficientes para que decidamos qual dos pactos deveria estar em curso nesta obra, mas a discrep\u00e2ncia dos nomes misturada com um certo tom t\u00edpico dos autores da Garo da \u00e9poca levam \u00e0 ideia da segunda), mas factor de estrutura\u00e7\u00e3o mesmo das imagens, sobretudo ao in\u00edcio. H\u00e1 espa\u00e7os suficientes nos quais entram os corpos das criaturas animadas, sejam enquanto cita\u00e7\u00f5es que informam a rela\u00e7\u00e3o de Ichiko e Sachiko (com a Branca de Neve nos bra\u00e7os do Pr\u00edncipe), sejam enquanto personagens-projec\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de Ichiko (a personagem decapitada, que faz pensar numa vers\u00e3o de humor negro do Grilo Falante).<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9057\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/red-colored-elegy\/attachment\/2-112\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9057\" title=\"2\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2108.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2108.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2108-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><br \/>\nEssas interven\u00e7\u00f5es das \u201cimagens do trabalho\u201d naquelas que, no interior da obra, fazem representar \u201ca realidade\u201d, desvelam o modo como Hayashi permite a entrada da fantasia. Esta, mesmo que s\u00fabita, e principalmente violenta (um desastre de autom\u00f3vel e a morte de Ichiro, ambos os acidentes provocados por um \u201cdisparo com o dedo\u201d, uma cena de Godzilla), tem o mesmo direito de cidadania que as restantes imagens. Se bem que n\u00e3o exista uma correla\u00e7\u00e3o directa, Chris Ware far\u00e1 isto em Jimmy Corrigan e David B. em L\u2019Ascension, de modos muito diferentes, Ware mais pr\u00f3ximo de Hayashi do que o autor franc\u00eas. S\u00e3o apenas interrup\u00e7\u00f5es da linearidade causal, narrativa, emp\u00edrica da fic\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o seu pr\u00f3prio fundo ontol\u00f3gico, como em L\u2019Ascencion. Mas estabelece-se essa afinidade nesse uso.<\/p>\n<p>A flutua\u00e7\u00e3o de estilos \u2013 usualmente um tra\u00e7o simples, contornos l\u00edmpidos para as personagens principais, a interven\u00e7\u00e3o de desenhos mais realistas e preenchidos por sombras e tramas (especialmente aquelas que se adivinham com algum tipo de autoridade), rostos de elementos apagados, silhuetas a negro contra fundos detalhados, a colagem de reprodu\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas mas alteradas, vinhetas totalmente a branco com apenas o texto interrompendo esse fluxo, uma utiliza\u00e7\u00e3o maior de cen\u00e1rios despidos com a excep\u00e7\u00e3o do futon e das personagens, mas que n\u00e3o impede a utiliza\u00e7\u00e3o de splash pages duplas, e cenas de paisagens urbanas, costeiras ou imagens de um c\u00e9u turbulento sem quaisquer coment\u00e1rios ou clareza no \u201cuso\u201d &#8211; esta flutua\u00e7\u00e3o, diz\u00edamos, concorre para a instaura\u00e7\u00e3o de Red Colored Elegy como a ilustra\u00e7\u00e3o profunda da indecis\u00e3o, feita de toda a esp\u00e9cie de camadas, algumas delas talvez mesmo contradit\u00f3rias, de Ichiko em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vida e a tudo o que ela engloba: a fam\u00edlia, o(s) emprego(s) e, sobretudo, claro, a sua amante Sachiko.<br \/>\nEsses estilos, apesar dessa flutua\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o, abrem o caminho a uma outra leitura. Se o rosto \u00e9 o palco maior da express\u00e3o, nos seus dois sentidos, quer dizer, o que se quer exprimir (poder-se-ia traduzir por um \u201cconte\u00fado\u201d) e o que toma forma para exprimir (a \u201cforma\u201d, ou seja, o rosto humano na sua variedade pl\u00e1stica), Hayashi parece evitar uma destreza e claridade nesse dom\u00ednio.<\/p>\n<p>As emo\u00e7\u00f5es, as crises, os dilaceramentos, as s\u00faplicas, as reden\u00e7\u00f5es, passam-se, mas \u00e9 raramente que se passem nos rostos das personagens: est\u00e3o antes nas posi\u00e7\u00f5es expressivas, dram\u00e1ticas (quase melodram\u00e1ticas, em alguns casos pontuais), dos corpos, nos pequenos duetos das m\u00e3os, transmitidos sobre os objectos ou mesmo os espa\u00e7os que os rodeiam. Vejam-se estas duas imagens. Se na primeira (mais acima), que corresponde aquele m\u00ednimo uso de signos do desenho que verificamos ao longo das p\u00e1ginas do livro, o contexto, mesmo que em staccato, descont\u00ednuo, abaixo do n\u00edvel linear e claro de uma narrativa, nos permite restituir os humores implicados, e uma trama geral dos acontecimentos (ao mesmo tempo que parece ecoar o trabalho de anima\u00e7\u00e3o da personagem\/autor, onde nos \u00e9 dado ver apenas os intervalos maiores), na segunda prancha (neste par\u00e1grafo), os n\u00e3o-ditos ganham uma maior presen\u00e7a e for\u00e7a, quer atrav\u00e9s das frases m\u00ednimas que n\u00e3o parecem construir nenhum sentido exacto (mesmo que relacionadas com o que vem de tr\u00e1s e o que se seguir\u00e1) quer por deslocar a nossa aten\u00e7\u00e3o para os afloramentos que os dedos fazem uns nos outros, no antebra\u00e7o, fazendo-se adivinhar outro tipo de comunica\u00e7\u00e3o, no qual, apesar de o testemunharmos, n\u00e3o participamos e n\u00e3o compreenderemos jamais a fundo&#8230; No final, n\u00e3o nos \u00e9 ofertado nem um final feliz nem um final infeliz. Ficamos antes suspenso num ritmo que parece ser bisado para e por Ichiko, mas que nos coloca \u201cde fora\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a elegia seja em nome do amor, mas ele manter-se-\u00e1, afinal, mesmo que haja afastamentos. Mas aquele que \u00e9 mais afastado desse amor, afinal, somos n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Autor: Pedro Vieira Moura<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma adivinha aned\u00f3tica muito conhecida na l\u00edngua inglesa e bastante antiga: \u201co que \u00e9 preto-e-branco e vermelho a toda a volta?\u201d. 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