{"id":8246,"date":"2009-03-05T00:00:00","date_gmt":"2009-03-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8246"},"modified":"2011-02-23T12:13:34","modified_gmt":"2011-02-23T12:13:34","slug":"ryota-no-mandala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/manga\/ryota-no-mandala\/","title":{"rendered":"Ryota no Mandala"},"content":{"rendered":"<p>tradu\u00e7\u00e3o francesa re\u00fane em tr\u00eas volumes o que penso ser a vida longa, 10 anos, da s\u00e9rie \u201cRyota no Mandala\u201d, sendo Ryota o nome do protagonista, um jovem de dezasseis anos (e que envelhece com o progresso \u201cnatural\u201d dos epis\u00f3dios) e Mandala o nome da pens\u00e3o termal onde vive e trabalha (perten\u00e7a da sua m\u00e3e).<\/p>\n<p>Tratando-se de uma s\u00e9rie cuja vida original se estendeu de 1979 pelos anos 80 no Jap\u00e3o, h\u00e1 por\u00e9m uma qualquer patina que se desprende de toda a obra que faz pensar num tom nost\u00e1lgico, que poder\u00e1 ter a ver com a adolesc\u00eancia do pr\u00f3prio autor, ou com um certa apet\u00eancia para um imagin\u00e1rio patente na fic\u00e7\u00e3o japonesa da \u00e9poca (no cinema, na literatura, e para al\u00e9m dela). Esse aspecto pode ser ilustrado com uma das facetas de Jun Hatanaka, que \u00e9 a de cultor da xilogravura, um acto que, s\u00f3 por si, revelar\u00e1 um interesse e uma entrega a um modo de cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tanto obsoleto \u2013 coment\u00e1rio apenas poss\u00edvel naqueles que s\u00e3o cegos pelo fulgor do \u201cnovo\u201d \u2013 mas aberto a uma rememora\u00e7\u00e3o de gestos menos habituais. \u00c9 como se Hatanaka escrevesse no presente sempre olhando para o passado por cima do ombro.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9153\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/manga\/ryota-no-mandala\/attachment\/1-136\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9153\" title=\"1\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1132.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1132.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1132-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><br \/>\nO passado n\u00e3o pode ser olhado olhando para tr\u00e1s rodando todo o corpo, pois assim passar\u00edamos a estar de novo voltados para o futuro (que \u00e9, na nossa cultura, o que est\u00e1 em frente dos nossos rostos e olhar), mas antes olhado com alguma dificuldade para tr\u00e1s. Por\u00e9m, \u00e9 esta mesma dificuldade, at\u00e9 f\u00edsica, que torna claro o paradoxo de olhar para o passado e tentar falar dele por meio de uma obra (ficcional ou n\u00e3o, de arte ou menos), daquilo que, de certa forma, Walter Benjamin cristalizou na imagem de \u201colhar por um telesc\u00f3pio o passado atrav\u00e9s do presente\u201d (\u00e9 dif\u00edcil traduzir esta imagem em conceitos claros, mas trata-se de fazer convergir num espa\u00e7o todo um movimento, de condensar elementos numa s\u00f3 figura, de manter \u00e0 dist\u00e2ncia aquilo que trazemos para perto de n\u00f3s).<\/p>\n<p>Os volumes s\u00e3o compostos por hist\u00f3rias curtas, epis\u00f3dios que t\u00eam como centro acontecimentos que n\u00e3o se relacionam entre si, tornando-os portanto independentes uns dos outros. Mas ao mesmo tempo existem aspectos recorrentes, que n\u00e3o t\u00eam simplesmente a ver com temas repetidos ou tra\u00e7os das personalidades das suas personagens revisitados, mas antes com um movimento espiralado, vest\u00edgios que se revisitam para a cada vez se tornarem mais claros ou mais complexos, fazendo emergir, no final, uma imagem comp\u00f3sita com todos esses elementos. Mais uma vez, \u00e9 uma imita\u00e7\u00e3o do modo como a mem\u00f3ria funciona, apesar de n\u00e3o existir qualquer ind\u00edcio directo ou extra-textual que o indique: trata-se de uma impress\u00e3o criada por esse ritmo.<\/p>\n<p>Na verdade, h\u00e1 um tema \u00f3bvio tratado em cada epis\u00f3dio da vida de Ryota: o despertar para a vida sexual dos adolescentes, n\u00e3o s\u00f3 o pr\u00f3prio Ryota, como a dos seus amigos mais pr\u00f3ximos e a das raparigas que v\u00e3o surgindo, tocando tangencialmente a de todos os outros intervenientes. As est\u00e2ncias termais no Jap\u00e3o s\u00e3o classicamente consideradas um local de deboche e oportunidades sexuais. O conceito de \u201cpecado\u201d \u00e9 inexistente na cultural japonesa, e a prostitui\u00e7\u00e3o, apesar de ser uma figura jur\u00eddica ilegal, toma muitas formas aceites de um modo quase natural (quer dizer, sem estranheza) naquela sociedade. A exist\u00eancia de \u201cservi\u00e7os extra\u201d num local destes \u2013 anos antes do desenvolvimento das soaplands \u2013 era n\u00e3o apenas esperada, como parte integrante.<\/p>\n<p>A est\u00e2ncia Mandala tenta ser \u201climpa\u201d, mas testemunhamos os momentos em que nem sempre isso \u00e9 poss\u00edvel, e quando por vezes se verifica mesmo a coniv\u00eancia de todos os seus membros. Por exemplo, a m\u00e3e de Ryota por v\u00e1rias ocasi\u00f5es sabe dos comportamentos do filho, que inclui espreitar as mulheres no banho, masturbar-se num local mais privado ou mais p\u00fablico, fazer sexo com v\u00e1rias mulheres&#8230; Isso n\u00e3o constitui um choque para a m\u00e3e, como o seria, talvez, nas nossas sociedades sob a sombra do pecado, e \u00e9 mat\u00e9ria de interesse de contraste cultural. Quase todos os aspectos relacionados com a esfera sexual, nestas hist\u00f3rias, inclusive o humor, sublinham as diferen\u00e7as culturais entre esta cultura particular e a nossa, mas \u00e9 a\u00ed que reside a transforma\u00e7\u00e3o desta hist\u00f3rias num palco de aprendizagem efectivo.<\/p>\n<p>O humor de Jun Hatanaka vive portanto deste c\u00edrculo de refer\u00eancias, piadas por vezes de mau gosto, ou de um gosto f\u00e1cil, mas a obra ganha uma dimens\u00e3o mais forte e acabada gra\u00e7as aos \u00e2ngulos mais humanos que coloca em torno destes acontecimentos.<\/p>\n<p>Ryota du Mandala acaba por se tornar uma esp\u00e9cie de retrato da vida campesina ou montanhesa destas personagens, numa \u00e9poca em que a estandardiza\u00e7\u00e3o da cultura japonesa ainda n\u00e3o estava efectivada, em que toda uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos culturais por vir ainda se estavam formando e havia a possibilidade de uma procura por um espa\u00e7o pr\u00f3prio, em que a mobilidade social era ainda poss\u00edvel, desejada e experimentada gra\u00e7as a abertura social e econ\u00f3mica que come\u00e7ava a ganhar forma. Testemunhamos tamb\u00e9m os momentos de lazer e de confronto destas personagens com a vida mais urbana, das metr\u00f3poles em crescimento, quando eles \u201cdescem \u00e0 cidade\u201d. Vemos uma prociss\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es sociais e de personagens que, sendo personagens-tipo, ganham direito a um ou dois momentos de se tornaram verdadeiras personalidades (como o professor de Matem\u00e1tica, ou um criminoso que retorna para poder ver as filhas, ou uma jovem que fugira e se redime na vila que a viu nascer).<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9154\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/manga\/ryota-no-mandala\/attachment\/2-129\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9154\" title=\"2\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2125.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2125.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2125-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><br \/>\nEsse tratamento paradoxal tem tamb\u00e9m a sua dimens\u00e3o e din\u00e2mica visual, no tratamento quase ideogram\u00e1tico das personagens principais, especialmente os homens ou as personagens mais velhas, e uma op\u00e7\u00e3o por uma estiliza\u00e7\u00e3o estereotipada das raparigas jovens, por um lado objectificando-as, sem d\u00favida, mas por outro sublinhando assim a sua capacidade de fasc\u00ednio (nada que n\u00e3o houvesse sido tentado antes, mesmo na banda desenhada ocidental, bastando recordar as \u201cGibson girls\u201d, ou o tratamento an\u00e1logo por George McManus, muito influente no Jap\u00e3o na emerg\u00eancia da mang\u00e1 moderna, ou Cliff Sterrett).<\/p>\n<p>E h\u00e1 ainda momentos em que o autor se permite a inclus\u00e3o de intervalos id\u00edlicos, gra\u00e7as \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de um passeio, um piquenique, uma curta viagem, entregando-se a parcelares apresenta\u00e7\u00e3o da natureza que rodeia a pens\u00e3o Mandala, trazendo os exerc\u00edcios cl\u00e1ssicos das paisagens nas quatro esta\u00e7\u00f5es para o interior destas pequenas narrativas.<br \/>\nH\u00e1, ent\u00e3o, duas formas de lermos estes livros. Ou a de nos centrarmos somente nas escapadas e piadas em torno do sexo, que se repete e esgota a partir de certo ponto. Ou a de permitirmo-nos descobrir essas outras menos imediatas dimens\u00f5es das hist\u00f3rias, que por sua vez as iluminam e as transfiguram em momentos de mem\u00f3rias nossas, mesmo que as n\u00e3o sejam.<\/p>\n<p><strong>Autor: Pedro Vieira de Moura<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>tradu\u00e7\u00e3o francesa re\u00fane em tr\u00eas volumes o que penso ser a vida longa, 10 anos, da s\u00e9rie \u201cRyota no Mandala\u201d, sendo Ryota o nome do protagonista, um jovem de dezasseis&nbsp;[ &hellip; ]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9153,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1283,5],"tags":[2208,2207],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8246"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8246"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8246\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}