{"id":8274,"date":"2009-08-16T23:00:00","date_gmt":"2009-08-16T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/?p=8274"},"modified":"2011-04-01T09:10:22","modified_gmt":"2011-04-01T09:10:22","slug":"o-mau-o-pior-ainda-e-o-vilo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.clubotaku.org\/niji\/artigos\/o-mau-o-pior-ainda-e-o-vilo\/","title":{"rendered":"O Mau, o Pior Ainda e o Vil\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Escuro. Murm\u00farios abafados numa chusma nervosa de homens, armaduras, e armas. L\u00e1 pelo meio, avan\u00e7a o soldado, que vem mais empurrado pelos companheiros no medo do que pelo seu pr\u00f3prio p\u00e9 e vontade. Lentamente, isola-se do pelot\u00e3o uns poucos passos \u00e0 frente e fica s\u00f3, apenas envolvido pelo pavor. Pavor que n\u00e3o dura muito: antes de perder os sentidos, tem tempo para sentir um estrondo ensurdecedor que lhe estilha\u00e7a ossos e carne, e o projecta metros pelo ar numa pat\u00e9tica am\u00e1lgama humana.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9523\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/artigos\/o-mau-o-pior-ainda-e-o-vilo\/attachment\/1-196\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9523\" title=\"1\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1192.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1192.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/1192-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Este seria o ponto de vista de um soldado romano, t\u00edpico e quase literal carne-para-canh\u00e3o numa qualquer hist\u00f3ria do simp\u00e1tico gaul\u00eas de asas na cabe\u00e7a, e a minha tentativa algo oportunista de introduzir o tema do vil\u00e3o. Como protagonista.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m agora dar uma vista de olhos por algumas no\u00e7\u00f5es de literatura e tipos de personagens. Por protagonista, entenda-se o personagem principal; antagonista, aquele que se op\u00f5e \u00e0s ac\u00e7\u00f5es do principal. Temos tamb\u00e9m o vil\u00e3o, cujas ac\u00e7\u00f5es s\u00e3o reprov\u00e1veis, e o tipo bonzinho (termo t\u00e9cnico!). H\u00e1 o her\u00f3i, que age de acordo com valores comummente aceites como positivos; e o anti-her\u00f3i, que age contrariamente a estes valores. Normalmente, o tipo bonzinho \u00e9 o protagonista. O vil\u00e3o, o antagonista. No entanto, se o foco da hist\u00f3ria est\u00e1 no vil\u00e3o, o tipo bonzinho vira antagonista, sem, no entanto, deixar de ser her\u00f3i. E o vil\u00e3o passa a protagonista mas continua o anti-her\u00f3i.<\/p>\n<p>Mesmo em mi\u00fados, ainda que tenhamos lido hist\u00f3rias em que os dois lados surgem (naquele \u201cenquanto isso&#8230;\u201d de intervalo ao que o her\u00f3i est\u00e1 a fazer) em que nos \u00e9 mostrado qu\u00e3o maquiav\u00e9licos s\u00e3o os planos que o vil\u00e3o prepara, n\u00e3o \u00e9 de todo habitual haver uma \u00eanfase sobre o vil\u00e3o, muito menos torn\u00e1-lo na personagem principal. Ou, muito, muito menos ainda, procurar criar no leitor uma empatia para com os motivos do malfeitor. Ou a \u201csympathy for the devil\u201d, como cantada pelos Stones.<\/p>\n<p>Um ponto de vista que se prolonga na nossa vida, enquanto espectadores: separar o bem do mal, o errado do certo, num preto e branco implac\u00e1vel. E se de alguma maneira se justifica que, em pequenos, at\u00e9 por uma quest\u00e3o de utilitarismo moral, as coisas surjam assim, j\u00e1 ser\u00e1 at\u00e9 algo embara\u00e7oso e limitado continuarmos com esta atitude \u00e0 medida que crescemos.<\/p>\n<p>Podemos aqui puxar pela bandeira do manga: \u00e9 sabido que a linha bem e mal no t\u00edpico manga \u00e9 normalmente bem mais pastosa. Que o personagem que antes era o supra-sumo da malvadez se torne aliado ou &#8220;side-quick&#8221; contrariado do Songoku, perd\u00e3o, do personagem principal.<\/p>\n<p>Mas depois, temos o caso que ainda baralha mais gente: a tal situa\u00e7\u00e3o do vil\u00e3o enquanto personagem principal. Em romance, \u00e9 o caso de livros como \u201cO Perfume\u201d; em TV, com a s\u00e9rie \u201cDexter\u201d; em manga, \u00e9 caso paradigm\u00e1tico Death Note.<\/p>\n<p>Resumidamente, Death Note centra-se em Light (Raito) Yagami, um rapaz que, por acidente, encontra um caderno. Inscrita na capa deste, junto com uma quantidade de outras regras, est\u00e1 a frase \u201cO humano cujo nome for escrito nesta caderno ir\u00e1 morrer\u201d. Rapidamente Raito \u00e9 confrontado com evid\u00eancias que o levam a ultrapassar a desconfian\u00e7a inicial, e resolve usar o caderno como ferramenta para erradicar o crime, para g\u00e1udio do original dono do caderno, o deus da morte Ryuk. Raito \u00e9 de tal maneira eficiente que cedo a Pol\u00edcia Internacional estranha o s\u00fabido aumento de mortes junto da comunidade criminosa e recorre aos servi\u00e7os de L, tido como um dos melhores detectives mundiais, para investigar.<\/p>\n<p>Ter o protagonista como vil\u00e3o origina resultados interessantes para quem analiza a reac\u00e7\u00e3o do leitor. H\u00e1 o leitor que p\u00f5e terminantemente a hist\u00f3ria de lado, porque lhe \u00e9 imposs\u00edvel ter afinidades com um conto onde o lado negro \u00e9 quase exaltado; aquele que insiste em procurar o lado \u201cbom\u201d da hist\u00f3ria, e afei\u00e7oa-se aos personagens que lutam contra o principal; aqueles que se recostam como meros espectadores, em se p\u00f5em a ver a marcha passar, sem tomar lados; ou, talvez mais inquietante, aqueles que v\u00eaem no personagem principal um espelho das suas puls\u00f5es negativas, ou ideais amb\u00edguos, e o apoiam. Em Death Note, temos os seguidores de L; os neutros que observam com uma satisfa\u00e7\u00e3o algo s\u00e1dica; e os seguidores de Kira\/Light. N\u00e3o raras vezes, os neutros acabam por torcer pelo anti-her\u00f3i, mais n\u00e3o seja porque apimenta a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sobre a projec\u00e7\u00e3o que o leitor faz de si mesmo no personagem, Stan Lee, escritor para a Marvel, comenta a apet\u00eancia dos f\u00e3s pelos super-her\u00f3is que cria, como fruto da frustra\u00e7\u00e3o que qualquer um j\u00e1 sentiu enquanto vitima. Quantos n\u00e3o ter\u00e3o sonhado com, depois de algum ladr\u00e3o o ter roubado na rua, poder voar para onde o sacana est\u00e1 e poder aplicar-lhe dois murros na cara? O \u201cai sei eu pudesse&#8230;\u201d Mas n\u00e3o pode. E ler os comics \u00e9 uma maneira de dar um escape a essa fantasia.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9525\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/artigos\/o-mau-o-pior-ainda-e-o-vilo\/attachment\/3-166\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9525\" title=\"3\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3162.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3162.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/3162-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os que tomam Light como modelo operam mais ou menos pela mesma motiva\u00e7\u00e3o. Foram, ou vivem sob o amea\u00e7a de serem vitimizados. Sentir\u00e3o falta de um poder superior e implac\u00e1vel que erradique estas amea\u00e7as sem grandes ondas e, ao mesmo tempo, n\u00e3o confiam no poder institu\u00eddo de pol\u00edcias, tribunais e afins; apoiam e sentem empatia pela escolha que Light fez no que respeita ao uso da Death Note como ferramenta para acabar com o crime &#8211; esquecendo a possibilidade de que alguns dos acusados pelos media possam ser na realidade inocentes \u2013 e torcem para que Light consiga ultrapassar as dificuldades impostas pela investiga\u00e7\u00e3o policial, nem que para isso tenha de matar alguns investigadores pelo meio&#8230; A meu ver, \u00e9 uma fantasia que ter\u00e1 passado pela cabe\u00e7a de todos n\u00f3s: poder obliterar uma amea\u00e7a ou injusti\u00e7a da nossa vida, e quem sabe at\u00e9 poupar dissabores a outros. E s\u00f3 com papel e caneta, ainda por cima! \u00c9 o nosso lado de mil\u00edcia popular, ou megera vingativa. Mas tais fantasias n\u00e3o deixam de nos deixar um certo amargo de boca.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 o problema, e simultaneamente, o SPOILER: calculo que estas incurs\u00f5es pelos nossos lados negros nem sempre deixem o pr\u00f3prio autor da hist\u00f3ria confort\u00e1vel, e o caminho do protagonista-vil\u00e3o n\u00e3o raras vezes \u00e9 descendente. \u00c9 quase como se houvesse uma necessidade de voltar \u00e0 seguran\u00e7a do certo-errado infantil. Der l\u00e1 por onde der, C\u00e9sar tem de acabar com o Coliseu em ru\u00ednas, e Light tem de descer de jovem ambicioso com idealismos perigosos a verme rid\u00edculo a implorar pela vida. Seguindo o velho ad\u00e1gio de o poder corrompe, temos no inicio do manga Light a debater-se, angustiado, com os problemas morais que tal poder levanta. Mas uma vez que usa o caderno, racionaliza o seu uso e coloca-se num patamar superior, a partir da\u00ed o corte \u00e9 total, e o que temos \u00e0 nossa frente \u00e9 o tipo de pessoa que o Light original reprovaria totalmente. \u00c9 o irromper do anti-her\u00f3i. Todo e qualquer ponto positivo que Light teria \u00e9 deturpado: os seus supostos altos padr\u00f5es morais s\u00e3o deitados por terra no momento em que tem a oportunidade de matar o opositor L durante a primeira transmiss\u00e3o televisiva; a sua intelig\u00eancia \u00e9 apenas usada num recambolesco jogo de gato-e-rato; a sedu\u00e7\u00e3o transformada em manipula\u00e7\u00e3o; a ambi\u00e7\u00e3o transformada em arrog\u00e2ncia est\u00fapida que acaba por derruba-lo. Aqui, \u00e9 interessante ver como os f\u00e3s de Light procuram justificar esta mudan\u00e7a, seguindo muita da racionaliza\u00e7\u00e3o que Light faz inicialmente: \u00e9 \u00f3bvio que tem de matar L, pois este impede o surgimento de um mundo justo; \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em usar Misa, uma vez que ela pr\u00f3pria n\u00e3o est\u00e1 livre de culpa&#8230; E a ideia de que os fins justificam os meios come\u00e7a a soar decididamente torpe.<\/p>\n<p><a rel=\"attachment wp-att-9524\" href=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/artigos\/o-mau-o-pior-ainda-e-o-vilo\/attachment\/2-183\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9524\" title=\"2\" src=\"http:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2179.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2179.jpg 640w, https:\/\/www.clubotaku.org\/nijiwp\/wp-content\/uploads\/2179-300x135.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Somos lembrados do ponto a que Light se alterou, quando vemos a personagem de quando da sua perda de mem\u00f3ria, desaprovar totalmente as sugest\u00f5es de L no que toca a usar pessoas e sentimentos para apanhar Kira, reac\u00e7\u00e3o que espanta o pr\u00f3prio L. Perante alguns dos pensamentos e atitudes de L, \u00e9 at\u00e9 normal duvidar se existiram realmente her\u00f3is em Death Note: se os h\u00e1, um deles ser\u00e1 Light desmemoriado. E se calhar, durante aqueles curtos segundos no helic\u00f3ptero, Light-bonzinho  tem a curta consci\u00eancia de quem \u00e9, do que fez, em que se tornou, e at\u00e9 que ponto est\u00e1 perdido. E o grito de p\u00e2nico que solta nada mais \u00e9 do que a consci\u00eancia de tudo isto a esmag\u00e1-lo e cal\u00e1-lo para sempre. Por segundos, \u00e9 o her\u00f3i tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Neste sentido, personagens como estas acabam por ter a dupla fun\u00e7\u00e3o de libertar as nossas puls\u00f5es negativas, e, ao mesmo tempo, \u201cviver\u201d as consequ\u00eancias por n\u00f3s. De nos p\u00f4r na posi\u00e7\u00e3o de, a uma dist\u00e2ncia segura, confrontarmos os nossos pr\u00f3prios fantasmas.<\/p>\n<p>Mas porque \u00e9 que t\u00eam sempre de perder no fim?<\/p>\n<p><strong>Autor: Celia Kage<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escuro. Murm\u00farios abafados numa chusma nervosa de homens, armaduras, e armas. 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