Os Manga (nome dado à Banda Desenhada japonesa), apesar das diferenças culturais e narrativas específicas da cultura japonesa que os produz, souberam conquistar facilmente o mercado ocidental da BD, num processo espontâneo, que decorreu ao longo dos anos 90, contando, muitas vezes com o auxílio importante das séries de animação japonesas, muitas delas baseadas em mangás de sucesso, como foi o caso do Dragon Ball de Akira Toryama. O resultado foi um sucesso comercial fulgurante, que faz com que actualmente, a maioria das editoras francesas tenham uma colecção mangá no seu catálogo e algumas, como a Tonkam, se dediquem apenas a este género.
Mesmo que as editoras japonesas não tenham tido que se esforçar muito para isso, os mangá invadiram literalmente as livrarias e quiosques de toda a Europa. Bem… toda não, pois, tal como nas histórias de Asterix, um pequeno país à beira-mar plantado, resistia ainda ao invasor japonês… Até agora!
Depois da experiência falhada da Texto Editora com as séries Styker e Ramna ½, a Meribérica/liber, decidiu também ela apostar nos mangá, começando por publicar a mega-série Akira, já no 11º volume, a que se seguem agora os dois primeiros volumes de Mother Sarah, outra criação de Katshuiro Otomo, com desenhos de Takumi Nagayasu.
O VIOLENTO DESPERTAR DE AKIRA
Justamente considerado como o ponta de lança da invasão japonesa, Akira chegou ao Ocidente em finais da década de 80, através da Epic Comics, uma companhia subsidiária da Marvel que, numa tentativa de adequar a série aos padrões dos leitores americanos, publicou Akira em formato comic-book e numa versão colorida por computador por Steve Oliff, que está na origem das restantes versões europeias, incluindo a da Meribérica.
Iniciada em 1982, nas páginas da revista YOUNG MAGAZINE, Akira nasceu a partir de uma sugestão do editor de Otomo, que lhe pediu uma história de adolescentes. O que era para ser inicialmente uma história de 200 páginas foi-se complicando e evoluindo, até dar origem a um épico de mais de 2.000 páginas de acção ininterrupta, que se lêem de um fôlego.
Apesar do seu extraordinário sucesso, Akira foi considerada como demasiado ocidentalizada para os leitores japoneses (foi a primeira série a trazer o título em inglês na capa), confundidos pelo estilo personalizado de Otomo, que cita Moebius como uma das suas principais influências. No entanto, Akira é profundamente japonês na sua narrativa e na sua mensagem. Conforme refere Thiery Groensteen, no seu livro LUnivers des Mangás, Os mangá não descrevem o Japão tal como ele é, eles materializam antes as suas projecções fantasmáticas e os seus traumas. E o maior desses fantasmas é o da guerra nuclear, que o Japão experimentou na pele, através dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaky que puseram fim à 2ª Guerra Mundial.
Um estigma presente em muita da ficção popular japonesa do pós-guerra (e os filmes da série Godzilla, um gigantesco dinossauro geneticamente modificado pela radiação, são talvez o exemplo mais óbvio) em que a destruição maciça das cidades, as mutações genéticas provocadas pela radiação e as ameaças naturais exteriores (convêm não esquecer que o Japão está situado numa zona sísmica por excelência) são presença constante.
ARQUITECTURA E DESTRUIÇÃO
E essa destruição está bem presente na obra de Katshuiro Otomo, em especial na saga de Akira. A Neo-Tóquio que Otomo criou para cenário da série é um espaço de uma grandiosidade majestática, apesar de decadente (e que, precisamente, só é mostrada em todo o seu esplendor nas páginas que antecedem a sua meticulosa e espectacular destruição), que não deixa de evocar a Los Angeles do filme Blade Runner. Conforme salienta Jordi Costa, de todos os autores de BD fascinados pela arquitectura, o japonês Katshuiro Otomo deve ser o único mais interessado no conceito de destruição do que no de construção. As cidades de Otomo só existem como potenciais cenários de confrontos desmesurados, combates de míticas ressonâncias que desembocam na aniquilação total, no nada, o deserto. Provavelmente é em Akira que essa ideia encontra a sua expressão mais diáfana, com esse urbanismo futurista de pesadelo, mas coerente que será reduzido a pedaços à medida que avança a acção.
Uma acção passada num futuro próximo, mas distópico em que o governo utiliza crianças com poderes paranormais como armas de guerra e a juventude sem futuro e sem esperança se agrupa em gangs de delinquentes, que percorrem em potentes motos as estradas de Neo Tokio, uma cidade gigantesca, cuja arquitectura lembra a Los Angeles do filme Blade Runner. Mas agora o perigo e a destruição não vêm do espaço exterior ou da natureza, como acontece em várias outras séries de mangá, mas do interior do próprio homem. O terrível Akira é apenas uma simples criança que passa a maioria da história num estado de animação suspensa, mas cuja incomensurável energia não pode ser controlada pela avançada tecnologia de um estado militar que abriu a caixa de Pandora.
E ao despertar de Akira corresponderá uma onda de destruição que, ao varrer os últimos vestígios da metrópole moderna e organizada de Neo-Tokio, sede prevista dos Jogos Olímpicos de 2031, dará lugar a uma calcinada terra de ninguém. Uma terra disputada pelos senhores da guerra (apoiados mais em poderes místicos e nas drogas, do que na força das armas) que controlam o acesso aos seus territórios, num previsível regresso a uma Idade das Trevas, que o ténue raio de luz que atravessa a poeira dos escombros do que foi a orgulhosa Neo Tokio, no final da mais espectacular cena de destruição jamais feita em BD, apenas vem confirmar. Uma visão de pesadelo recorrente na obra de Otomo e que também está presente na série Mother Sarah, que Otomo escreveu para os desenhos de Takumi Nagayasu, seu antigo assistente em Akira, o que está bem patente nas semelhanças do traço de ambos.
A PEREGRINAÇÃO DE MOTHER SARAH
Nesta longa saga, iniciada em 1990 mas ainda em publicação no Japão, (Otomo, que ultimamente se tem dedicado mais à animação, ainda está escrever o 7º e último capítulo da edição japonesa) um holocausto nuclear reduziu a Terra a um deserto radiactivo, obrigando o que resta da humanidade a refugiar-se em estações espaciais em órbita sobre a Terra. Quando os escassos sobreviventes podem finalmente abandonar as colónias orbitais e regressar ao seu planeta natal, é um mundo hostil que os aguarda, em que persistem as divisões políticas e a violência e onde o que resta das cidades foi transformado nos castelos dos novos senhores da guerra. Um cenário com bastantes paralelos com o de Akira, tal como é possível ver na coriácea Chiyoko, de Akira, uma primeira versão de Mother Sarah, uma mulher poderosa, capaz de enfrentar exércitos para reencontrar os seus filhos.
Concebido pelo argumentista como se de um filme se tratasse, cada episódio de Mother Sarah traduz o amor de Otomo ao cinema. Um amor que o tem afastado gradualmente da BD, mas que deu origem a grandes filmes, como a versão cinematográfica de Akira, Memories, Roujin Z, ou o notável Perfect Blue, de Satoshi Kon, que Otomo produziu.
Embora seja o mais conhecido no Ocidente, Katshuiro Otomo é apenas um dos muitos autores japoneses que trabalha com um espaço urbano desumanizado e castrador, ao qual o bando de Kaneda procura fugir através das drogas e da violência gratuita. Algo que sem dúvida emana das próprias características da sociedade japonesa, onde à grande falta de espaço se junta uma competitividade feroz, misturada com uma rígida disciplina e um elevado sentido de missão, funcionando os mangá como um dos raros escapes das pulsões acumuladas. As ruínas da mega-cidade de Akira ou a terra desolada de Mother Sarah podem deste modo ser lidas como uma sublimação, uma vontade de mudança que apenas parece passar pelo Apocalipse. Para que das cinzas renasça um novo mundo. Um mundo melhor e mais humano.
Autor:João Miguel Lameiras
