Se este tivesse sido o meu primeiro anime, provavelmente diria que se tratava do melhor anime de sempre. Contudo, foi necessário já ter visto vários para me dar conta da originalidade de Gunslinger Girl.
A série entrou, sem dúvida, no meu top de preferências. Talvez por abordar um tema tão delicado, talvez pela excelente qualidade da animação ou quem sabe pela música. Misturando tudo isto, acrescento o aspecto cinematográfico que é igualmente apelativo e talvez por isso se tenha transformado num anime de culto, deliciando a comunidade com algo fresco, algo a que não estavamos habituados.
As situações cómicas são inexistentes, mas não se chega ao extremo da melâncolia, equilibrando-se com as cenas violentas de acção que chegam a ser, em parte, a base da história.

Uma agência governamental secreta italiana, a Public Corporation for Social Welfare, recolhe raparigas à beira da morte e através de próteses mecânicas converte-as em assassinas. Caso não bastasse esse facto, essas mesmo raparigas utilizam métodos mais eficazes e violentos para cumprir as missões que lhe são entregues, desprovendo-se de qualquer sentimento ou piedade. Seguindo a teoria do “brain washing”, essas mesmo raparigas são ainda obrigadas a ter um companheiro que as guie e as treine, os seus “fratellos”.
Esta é a história base que pode parecer simples, mas trata um assunto delicado e ao longo da série vai-se complicando ainda mais, sobretudo qua as relações entre os fratellos e raparigas se acentuam e se misturam com o “trabalho”.
Embora a agência comporte várias raparigas, existem cinco que se destacam na trama da série. Não se pode definir propriamente uma personagem principal, pois as cinco são importantes. A acção inicia com a história de Henriquetta, e o seu primeiro contacto com o seu fratello, José. É uma relação diferente das outras, pois José sente pena da rapariga e realmente importa-se com ela, tratando-a quase como uma filha. Chega mesmo a haver uma relação mais premíscua que terão que descobrir. Ao longo dos episódios e de forma não cornológica são apresentadas as outras raparigas, juntamente com os seus “treinadores”. Angelica, Claes, Rico e Triella.

O desenrolar da acção é apresentado de uma forma mais séria, envolvendo algumas conversas técnicas e típicas entre membros de agências secretas. Existe um vasto leque de personagens secundários que servem apenas para integrar as raparigas num ambiente cada vez menos seu, pelo menos se as virmos como raparigas normais. Todas as missões que lhes são entregues prejudicam seriamente a nossa posição sobre a inocência. Jogam connosco, mostrando imagens realmente perturbadoreas. E não, não falo apenas da violência, mas sim da apatia e falta de sentimentos demonstrada pelas jovens. E a mensagem torna-se cada vez mais complexa, quando vemos as fortes relações com os fratellos, Eles tratam-nas como meros soldados com os quais não se deve criar relações.
O anime acaba por ser um verdadeiro teste psicológico à ausência de carinho e à maturidade que rapidamente aparece nestas crianças.
Visualmente é deslumbrante, com uma soberba manipulação das animações e na delicadeza do “chara design”. A palete cromática utilizada é bastante variada, embora as cores vivas não apareçam para não destoar do ambiente da série. Os cenários são tipicamente europeus, mais concretamente italianos, tendo em conta que é neste país onde a acção decorre. A maioria dos locais são réplicas dos monumentos e da arquitectura italiana e o pormenor é tanto que existem planos em que se focam jornais com os títulos e organização das páginas.

As músicas de Gunslinger Girl conseguem ajudar ainda mais o espírito da série, sendo alguns dos temas grandes “malhas” como é o tema de abertuda “The Light Before We Land” da autoria da banda The Delgados. Quanto à banda sonora em si, tem uma vertente bastante clássica e melancólica. Alguns temas são originais da série, enquanto que outros são “reutilizados” como por exemplo o Hino da Alegria de Beethoven.
A série estreou na FujiTV, na segunda temporada de 2oo3, ou seja em Outubro. Produzida pela Madhouse conta com vários nomes conhecidos como o realizador Asaka Morio (Chobits, Galaxy Angel), ou o “chara designer” Abe Hisashi (Chobits e Aquarian Age).
Em suma, Gunslinger Girl encaixa-se naquele conjunto de animes que surpreendem pela positiva e que vale a pena ver.
Autor:S érgio Moço
