Uma grande quantidade de autores não resiste à tentação de centrar as suas obras em volta dos seus hobbies favoritos. É o caso, por exemplo, de Yoshizumi Wataru com o ténis e Shirow Masamune com as armas de fogo e a organização militar. Fujishima Kosuke, o autor de “Aa! Megami-sama!”, já nessa obra tinha deixado transparecer o seu gosto pela tecnologia automóvel, tanto sobre duas como sobre quatro rodas, associando os personagens principais a um clube universitário de veículos motorizados.
Mas a oportunidade do popular artista japonês escrever uma história centrada na sua paixão só surgiu com eX-Driver, uma série de 6 OVA’s realizada pela Bandai Visual em 2000.
No futuro, já ninguém sabe conduzir um automóvel. Ao invés, carros controlados por inteligência artificial levam as pessoas para os seus destinos, bastando a elas falar qual o lugar para onde querem ir. Não existem engarrafamentos nem acidentes rodoviários… nem o prazer de ter um volante na mão e os pedais debaixo dos pés. Um futuro sem dúvida utópico para quem só utiliza um automóvel para se deslocar de casa para o trabalho… mas certamente distópico para qualquer apaixonado da tecnologia automóvel (como o autor).
Porém, nem tudo é perfeito neste quadro, e muito menos a inteligência artificial que controla estes veículos, que uma vez por outra tem tendência a enlouquecer e a colocar o carro (e os seus indefesos ocupantes) numa louca corrida pelas ruas da cidade, sem que nada o consiga parar. É para lidar com este tipo de situações que foi formada uma unidade de intervenção que recuperou autênticas relíquias motorizadas da era do motor a gasolina, e seleccionou as raríssimas pessoas que, nesta época, conseguem ainda manter a capacidade de
conduzir um carro a altas velocidades. Estes excepcionais pilotos são chamados de eX-Drivers.
Lisa e Lorna, além de estudantes do secundário, são também eX-Drivers. Elas formam uma dupla perfeita, a primeira com o seu Subaru Impreza (mais tarde um Lancia Stratos) e a outra com um clássico Lotus Europa.
Mas a estabilidade da equipa é abalada pela chegada do menino prodígio Soichi, com o seu pequeno Caterham Super Seven. Será que os conflitos internos entre os jovens elementos da equipa afectarão a sua capacidade de interceptar e deter os carros com inteligências artificiais defeituosas?
Podemos até perguntar onde é que há história no meio desta sinopse, e o certo é que realmente não existe uma história no sentido tradicional da palavra. Ao longo dos seis episódios vamos vendo a forma como os eX-Drivers encaram diversas situações, assistindo ao desenvolver das relações entre os 3 heróis, e descobrindo um pouco sobre este futuro que serve de pano de fundo à série. Contudo, não existe um fio narrativo principal que se veja, e o final não poderia ser mais aberto. Toda a série acaba por ser mais um pretexto para mostrar uma boa quantidade de perseguições automóveis bem retratadas, com motores potentes para todos os gostos (ou pelo menos para os gostos de quem gosta de automóveis) e uma dose saudável de fan-service.
Ao nível gráfico, com o designer de “Aa! Megami-sama” e “Sakura Taisen” ao leme, seria muito difícil falhar. As personagens são apelativas e anatomicamente correctas, como nos é várias vezes dado a comprovar. A qualidade da animação é muito razoável para este tipo de produção, não tendo os animadores sucumbido à tentação patente em “Initial D” de reduzir os veículos a CGI mal feito. Apesar disso, e da dificuldade em representar um objecto mecânico complexo como um automóvel em animação tradicional, as perspectivas dos veículos são sempre bem representadas, mesmo em movimento. As perseguições são retratadas de forma vibrante e com manobras que, apesar de muitas vezes parecerem pouco prováveis, são sempre espectaculares e nunca particularmente impossíveis.
A banda sonora é composta por músicas que fazem lembrar vídeo-jogos de corridas de automóveis, com temas instrumentais em estilo de rock rápido com muitas guitarradas eléctricas. Os temas de abertura e final seguem o mesmo estilo e não são particularmente memoráveis. Os desempenhos de Nagasawa Miki (Maya em “Neon Genesis Evangelion”) como Lisa, Asada Yoko (Arisu em “Serial Experiments Lain”) como Lorna e Kobayashi Yumiko (Excel em “Excel Saga”) como Soichi, são competentes.
eX-Driver é uma série despretenciosa e que se vende à base do nome do seu criador e do apelo a um nicho de público bastante específico, mas razoavelmente numeroso. Não atinge grandes vôos, mas é suficientemente razoável para divertir quem vê. Contudo, é especialmente recomendado a fãs de automóveis e a admiradores do design de Fujishima Kosuke. Para os restantes, servirá como prova que um grande nome não faz obrigatoriamente uma grande obra.
Autor:João Rocha
