“Gatekeepers” foi uma das séries de anime de maior sucesso do princípio do século 21 – não só devido a um mérito indicutível, como também como consequência de uma campanha de marketing extremamente bem conseguida. Um qualificativo interessante para atribuir à obra seria “pretenciosamente despretenciosa” – muito ao estilo das actuais produções de Hollywood, ofereceu entretenimento de qualidade sem tocar em questões demasiado profundas, mas apelando descaradamente ao maior público possível, e tendo sucedido nessa tarefa.
É de suspeitar que a série original foi lançada com o intuito de introduzir um novo “franchising” – muito ao estilo do que a Pioneer fez com “Tenchi Muyo!” ao longo dos anos 90 (e com continuação no século 21 com “Tenchi Muyo! GXP”). A confirmação desta teoria está quase assegurada com a chegada de uma nova obra que se propõe como a sequela da série original. Trata-se de “Gatekeepers 21”, uma série de 6 OAV’s que faz regressar os designs de Gotoh Keiji e a realização do estúdio Gonzo.
A nova série passa-se 32 anos depois das aventuras de Shun, Ruriko e companhia. No ano 2001, os invasores voltam em força, mais violentos do que nunca, para tomar os corpos e almas dos humanos de alma deturpada. Desta vez, o papel de protectora cabe a Isuzu Ayane, uma “gatekeeper” de carácter cínico e amargo que controla a “gate” do vento. A AEGIS, organização internacional de intercepção do invasor, continua a desempenhar a sua missão, mas com uma imagem bem mais discreta e em menor escala – como se tivesse sido vítima de um corte enorme no seu orçamento. Surpreendentemente, a delegação japonesa é agora liderada por Kageyama Reiji, o vilão da série original, que de alguma forma escapou ao destino a que parecia fadado no fim da série original e redimiu-se das suas acções. Dos “gatekeepers” originais, nem sinal – de tal forma que a operação de resistência parece ser assumida por somente estes dois personagens, apenas com o auxílio de uma nova tecnologia: aparelhos semelhantes a telemóveis capazes de criar “gates” artificiais.
Porém, Ayame consegue localizar uma nova “gatekeeeper”: Manazuru Miyu, uma colegial normalíssima, que apesar de intrigada pela realidade do combate aos invasores e interessada em controlar a sua “gate” de salto, não consegue deixar de ficar apavorada com os perigos e responsabilidades que agora recaem sobre ela. O regresso dos invasores também despoleta o reaparecimento de Yukino, a pequena, misteriosa e aparentemente imortal controladora da “gate” do gelo.
Quem gostou de “Gatekeepers” não se vai desiludir, em termos técnicos, com este “Gatekeepers 21”. Os valores de produção foram aumentados para a realização do OAV e o detalhe e fluidez da animação notam-se nesse aspecto. Também ao nível da história, o universo é consistente com o da série original. É lamentável, porém, ter sido deixado totalmente de parte o esclarecimento acerca do destino dos “gatekeepers” originais, apesar de alguns poucos aspectos serem deduzíveis a partir dos diálogos de Ayane e Reiji. O ambiente é muito mais pesado e menos humorístico do que na série original, o que é reflectido nas atitudes dos personagens principais, vítimas da falta de empatia e compaixão patentes na sociedade japonesa actual. Isso não significa que não existam, porém, alguns momentos de humor.
A música é competente, e pode-se destacar o tema de abertura dos 3 primeiros episódios, cuja melancolia e calma contrasta com a energia do tema final, este nitidamente inspirado no tema de abertura da série original.
Quem tiver a oportunidade de assistir a “Gatekeepers 21”, ficará concerteza à espera do aparecimento de novas instâncias deste universo, sobretudo no que diz respeito às aventuras subsequentes dos “gatekeepers” originais. Infelizmente, é pouco provável que isso aconteça, já que são poucas as séries shonen deste estilo em que os protagonistas não são adolescentes.
Apesar do buraco deixado em branco pelo meio do caminho, esta série de OAV’s
é um sucessor digno de “Gatekeepers”, e não ficarão desiludidos os seus espectadores, quer tenham ou não visto a série original.
Autor:João Rocha
