Vista a abundância recente de ofertas de anime no estilo “comédia romântica de ficção científica” – abrangendo, mas não limitada, a títulos como “Gravion” e “Vandread” – muitas das quais não atingindo critérios de qualidade mínimos relativamente à paródia que pretendem oferecer; justifica-se relembrar o que é realmente uma “comédia romântica de ficção científica” de gabarito.
E para isso, é preciso recuar até ao ano de 1996, quando o mundo dos fãs de animação japonesa, ainda a recompôr-se do choque de “Shin Seiki Evangelion” (“Neon Genesis Evangelion” para os anglófilos), recebeu com um olhar suspeito mas curioso, a (então) mais recente oferta da parceria dos estúdios XEBEC (“Love Hina”, “Bakuretsu Hunters”, “Shaman King”) com a distribuidora Starchild: uma série de 26 episódios entitulada de “Kidou Senkan Nadesico”.
O nome da série, traduzido literalmente para português, significa “Nave de Guerra Ágil Nadesico”. Porém, os produtores japoneses forneceram para a distribuição ocidental o título “Martian Successor Nadesico” (“Sucessor Marciano Nadesico”). Contudo, tal como no caso de “Evangelion” e outras, esta série é conhecida mais familiarmente como “Nadesico”. Com tantas traduções possíveis, só dizer o nome já se torna confuso, não? Esperem então até conhecerem a história, baseada num manga de Asamiya Kia.
A Terra está a ser invadida por misteriosos seres provenientes de Júpiter! Mas nada temam, porque as corajosas forças armadas espaciais terrestres percorrem incessantemente o espaço para defender os nossos futuros.
Infelizmente, os nossos futuros parecem agora incertos, porque a incompetência acumulada das forças armadas provocou a perda da colónia terrestre em Marte, e a iminência da invasão do próprio planeta Terra.
Quem não está para baixar os braços é a principal fornecedora de material militar das forças armadas, a corporação Nergal. Farta do desempenho menos-que-brilhante nos nossos soldados, a empresa decide construir a sua própria nave de guerra com tecnologia “state-of-the-art”, de forma a contrariar a previsível invasão dos chamados “lagartos jovianos”, e agora sim, garantir os nossos futuros – e os seus lucros. É assim que nasce a “ND-001 Nadesico”.
Infelizmente, dado que todo o pessoal competente está recrutado pelas forças armadas, a Nergal é obrigada a equipar a Nadesico com uma tripulação muito pouco… convencional. E a tripulação constitui, está claro, o elenco extravagante desta série. Desde a capitã Misumaru Yurika, uma aparente bimba cuja maior qualificação é ser filha de um almirante das forças armadas, passando pelas auxiliares (Minato, uma ex-secretária com admiráveis “dotes”, Megumi, uma seiyuu de anime, e Ruri, uma criança criada desde bebé para lidar com computadores), até aos pilotos de “mechas”, o pessoal de cozinha, e os próprios contactos com as forças armadas e com a Nergal.
Envolvido nesta confusão toda, fica inadvertidamente Tenkawa Akito – um velho amigo de Yurika dos seus tempos de infância na colónia de Marte, que se vê arredado do seu sonho de seguir a carreira de cozinheiro, para se ver novamente puxado para a pilotagem – uma ocupação da qual ele tinha vindo a tentar fugir desde há muito.
O futuro da humanidade depende deste grupo de palhaços, que para além de terem de gerir incómodas relações com a gestão da Nergal e com as forças armadas, misturam a sua vida emocional em todas as suas missões cruciais contra os “lagartos jovianos”, e acabam por ir buscar a sua inspiração e motivação a uma velha série de anime sentai – a indescritível “Gekiganger 3”! Por isso, força, Nadesico! As esperanças e sonhos dos povos da Terra estão contigo! (gulp)
O que, em 1996, tornou “Nadesico” numa série de culto revolucionária, foi a sua abordagem revolucionária da intersecção dos conceitos de comédia com ficção científica. Por um lado, a série oferece-nos uma história clássica de luta contra uma ameaça alienígena, entremeada com uma boa dose de pseudo-ciência relativamente plausível, e temperada com revezes realmente inesperados. Só por nos oferecer uma componente séria de boa qualidade, “Nadesico” já merece elogio. Mas “Nadesico” quis ser, e pela primeira vez no mundo do anime, conseguiu ser muito mais do que isso. A série é também um verdadeiro espectáculo de comédia, com momentos capazes de arrancar verdadeiras gargalhadas a quem vê – diferente em tudo de tantas outras obras ditas cómicas, mas que não conseguem arrancar aos espectadores muito mais do que um esboçar de sorriso. E o mais admirável, é que grande desse humor é conseguido à custa de “piscares-de-olho” à comunidade de fãs – quer seja através da inclusão do toque de nostalgia em “Gekiganger 3” – a mais admirável série-de-anime-dentro-de-uma-série-de-anime alguma vez vista em anime – e que desempenha um papel mais crucial em “Nadesico” do que poderia ser esperado; quer através das divertidas e constantes referências a elementos da cultura da “fandom” de anime – como sejam as convenções, os “model kits”, o coleccionismo e o “cosplay”. Quem fôr capaz de se rir de si próprio e do seu gosto por anime, não deixará de considerar estas alusões como fabulosas.
O ritmo narrativo de “Nadesico” é alucinante – algo incomum para uma série de 26 episódios. Certos espectadores terão talvez dificuldade em acompanhar os diálogos que conseguem atingir velocidades alucinantes – dando-se mesmo o caso de haverem 2 diálogos ao mesmo tempo. Este ritmo invulgarmente rápido pode ser devido ao facto da maior parte dos episódios da série terem sido escritos e produzidos por equipas diferentes, tendo assim os escritores esforçado-se ao máximo para “encaixar” todas as suas idéias e pretensões acerca do universo de “Nadesico” em 25 escassos minutos.
Também por isto, quem vê esta obra poderá ficar com a impressão de que a soma das partes é mais do que o todo, e que a história global não está à altura das situações mostradas em cada episódio. Contudo, nada invalida o brilhantismo do imaginário transportado das mentes dos escritores para cada episódio – uns mais do que outros – e que oferece ao conjunto um apelo irresistível.
Em termos artísticos, o espectador não terá dificuldade em reconhecer os designs de personagens de Goto Keiji (“Bakuretsu Hunters”, “Real Bout High School”), com os seus grandes olhos redondos e formas faciais características. Apesar de peculiares, estes enquadram-se com perfeição no espírito da série, cuja animação está à altura do que de melhor se fez durante meados da década de 90. As músicas são cativantes e adequadas, principalmente os temas de abertura e final, os quais ficarão concerteza nos ouvidos dos espectadores durante muito tempo.
Sendo uma das séries mais notórias da “era dourada” do anime, Nadesico conta com um elenco que, nesta época, já se pode considerar legendário. A aérea capitã Yurika é interpretada por Kuwashima Houko (Kirika em “Noir”, Satsuki em “X TV”, Maron em “Kamikaze Kaitou Jeanne”, Minoru em “Chobits”), o relutante cozinheiro/piloto Akito tem a voz de Ueda Yuuji (Sanosuke em “Rurouni Kenshin”, Keitaro em “Love Hina”, Kotaro em “Hand Maid May”), a cínica mas adorável Ruri ganhou vida pela boca de Minami Omi (Hyatt em “Excel Saga”), e o impagável Yamada Jiro (a.k.a. Daigouji Gai) foi interpretado pelo fabuloso Seki Tomokazu (Touya em “Card Captor Sakura”, Touji em “Evangelion”, Van em “Escaflowne”, Chichiri em “Fushigi Yuugi”). E mais não são mencionados porque uma listagem exaustiva do talento vocal presente nesta série ocuparia demasiado espaço para ser prático…
Sendo uma das referências incontornáveis do anime nos anos 90, “Nadesico” ganhou merecidamente o estatuto de série de culto entre os fãs. Quem ainda não viu este título, deveria colocá-lo em breve na sua lista de propriedade, porque anime deste, não aparece muito mais do que uma vez por década.
Admiradores de qualquer género encontrarão motivos para gostar de “Nadesico”, e o leitor deste artigo não é excepção. Em suma e numa só palavra: indispensável.
Autor:João Rocha
