A culpa foi minha. Eu já tinha tido más experiências com animes deste género (c.f. I My Me! Strawberry Egg) mas ainda assim decidi ver esta série. Porquê, perguntam vocês? Muito simplesmente: estava aborrecida, e queria algo leve, que não necessitasse de muita massa cinzenta para digerir. Neste aspecto, Otome Wa Boku Ni Koishiteru foi brilhante.
Para os que não viram I My Me! Strawberry Egg, e logo, não captaram a comparação, a história é esta: um rapaz de boas famílias tem de cumprir o desejo do seu avô, e esse desejo consiste em frequentar uma prestigiada escola só para raparigas. Claro que para isto ser possível, Mizuho – o rapaz em questão – terá de se vestir de miúda, tendo para isso a ajuda de Mariya, uma amiga de infância que anda nessa mesma escola.
Se eu consigo dizer, com convicção, que já vi séries com premissas mais credíveis, é natural que tenha seguido bastante céptica para o segundo episódio. Infelizmente, nada melhorou. Mizuho adapta-se à sua vida na escola, onde apenas uma mão cheia de gente (incluindo uma professora e a directora da escola) sabe a verdade sobre a sua situação. Nesta escola elege-se anualmente uma Onee-sama (um “cargo” similar ao de “Étoile”, visto em Strawberry Panic), e, para nossa grande surpresa, a popularidade de Mizuho assegura a sua vitória. Paralelamente, conhecemos duas raparigas mais novas (Yukari e Kana) que, seguindo a tradição da escola, se propõem a cuidar (de todas as maneiras possíveis) de Mariya e Mizuho.
Após 73 situações diferentes em que as mamas (falsas) de Mizuho são apalpadas, os autores decidem, numa tentativa de contraste, que nem toda a gente gosta dele(a?). Falamos concretamente de Takako, a presidente do conselho de estudantes. Esta caracterização serve apenas o propósito dramático de justificar a hesitação de Takako quando esta começa a aperceber-se que nutre algo mais do que amizade por Mizuho. Em suma: nada de novo. Todas as personagens são maravilhosamente unidimensionais e desprovidas de um pingo de originalidade. Mariya é igual a todas as outras raparigas extrovertidas e energéticas que já vimos em outros animes, com uma obsessão por envergonhar Mizuho das mais variadas formas.
images/series/otome/otome_1_b.jpg|images/series/otome/otome_1.jpgimages/series/otome/otome_2_b.jpg|images/series/otome/otome_2.jpgimages/series/otome/otome_3_b.jpg|images/series/otome/otome_3.jpg
Shion, a rapariga que é misteriosa durante 1 episódio e meio, foi a Onee-sama do ano anterior, mas infelizmente uma doença (daquelas misteriosas mas que desenvolvem a personagem) impediu-a de cumprir o seu “mandato” até ao fim. Shion repete agora o ano, embora continue a desmaiar em momentos de grande tensão dramática. Yukari transpira ingenuidade e alegria…mas de uma maneira má e desnecessariamente irritante. Kana é mais do mesmo, elevado ao cubo.
A graça de Kana está em ter originado o tema central do episódio mais absurdo da história do anime. “Case in point”: Takako, como presidente do conselho de estudantes, avalia regularmente os uniformes e demais adereços das estudantes de Shion; certo dia (e isto, saliente-se, passa-se vários meses depois da entrada de Kana na escola), esta repara que Kana tem um laço para o cabelo bastante grande e declara que este é obsceno e como tal, não poderá continuar a fazer parte do uniforme de Kana. Todo o resto do episódio, para grande surpresa minha, gira à volta deste tema. 20 minutos de conflitos estudantis por causa de um laço. Sim, um laço. O clímax do episódio dá-se numa espécie de debate aberto aos alunos entre Kana, Mizuho e Takako.
Mizuho, após expor razões bastante claras para fundamentar a sua oposição (o facto de as regulações da escola não mencionarem nenhum tipo de limitação aos adornos usados pelas alunas; ainda que um adereço se julgue impróprio, essa opinião é subjectiva e como tal, não pode ser abrangida a toda uma massa de estudantes) só consegue convencer as alunas de Shion com uma estratégia brilhante: pedindo o laço emprestado a Kana, Mizuho conclui que o laço só é grande porque Kana ainda é pequena. Benditas aulas de EVT. Se Mizuho não tivesse aprendido proporções, que seria da liberdade das jovens deste mundo? 20 minutos. Um laço. Estou tentada a dizer para verem esta série só para ter alguém com quem partilhar a minha dor.
Outro aspecto que me deixa bastante desconfortável é o fanservice. Numa situação normal, isto seria a coisa que menos me incomodava. Contudo, a partir do momento em que se incluem miúdas que imagino terem menos de 12 anos nas cenas de gente semi-nua, começa a ser um pouco difícil guardar a minha irritação. Nem a personagem de Mizuho justifica tanto fanservice. Mizuho, naquilo que é o único aspecto positivo da série, é bastante sóbrio e permanece envergonhado sempre que, inevitavelmente, se encontra diante/demasiado perto/a sobrevoar/entre partes intimas das suas colegas. Isto não é tremendamente original, mas há que louvar um protagonista tão assexual como Mizuho – qualquer que seja a situação, este retoma a sua compostura de imediato, sem pensar em fazer coisas más às meninas.
Esqueci-me de mencionar uma fantasma que assombra o quarto de Mizuho, e que falha a minha, pois Ichiko deixa também a sua marca na história do anime. [Um aviso: se ainda querem ver este anime, ignorem a frase seguinte…bem como toda a review, agora que penso nisso. O que é que ainda estão aqui a fazer? Xô!] Simplificando, a personagem é introduzida no segundo ou terceiro episódio, desenvolvida no seguinte e no final desse mesmo episódio, numa cena bastante dramática, despedimo-nos dela, ficando até com algum carinho por Ichiko, já que a sua história era cativante. Este estado de graça dura 2 minutos, pois Ichiko decide continuar nos aposentos de Mizuho, após chegar à conclusão que o que faltava mesmo a esta série era uma inconsistência ainda maior nas suas circunstâncias. (Ela é um espírito e por isso não consegue agarrar objectos, mas, no entanto, consegue ser agarrada e abraçada.)
images/series/otome/otome_1_b.jpg|images/series/otome/otome_1.jpgimages/series/otome/otome_2_b.jpg|images/series/otome/otome_2.jpgimages/series/otome/otome_3_b.jpg|images/series/otome/otome_3.jpg
Não há muito mais para dizer em relação a este anime. A animação é decente, ou aliás, é aquilo que se espera de uma série feita em 2006, mas não chega a ser particularmente interessante, e tem até momentos em que me deixou muito apreensiva (um exemplo disto são alguns momentos em que os braços das raparigas se prolongam até aos joelhos); aliás, a animação é mais rica quando está deformada, o que é bastante alarmante. Em relação ao som, também nada a assinalar. Já nem me recordo das músicas, quanto mais das seiyuu.
Resta apenas reforçar o que já tinha dito antes. Uma história baseada na pura necessidade de enfiar um rapaz numa escola só para raparigas, nunca irá originar uma série de qualidade. Enquanto que I My Me! Straberry Egg ainda conseguia ser agradável, mesmo com todos os defeitos que tinha, Otome Wa Boku Ni Koishiteru cai no poço da mediocridade por nem sequer tentar. É um exercício sem alma, sem arte, sem nada. A única razão para ver esta série é mesmo a que descrevi no inicio: puro aborrecimento.
Autor:Mafalda Melo
