«Desistir»… é uma palavra humana.
Tudo começou, inesperadamente, com uma banda desenhada colorida da mão do mestre
Um único motivo: dar caça a uns insolentes humanos que ousaram, por mais de uma vez, opôr-se aos deuses. O ruivo contesta com apenas uma pergunta… «Essa ordem foi proferida por… Zeus?»
Foi assim que os entusiastas da série Saint Seiya (Cavaleiros do Zodíaco, na sua «versão ocidental»), mal recompostos da surpresa que foi, após tantos anos, a produção da
…e é justamente assim que o filme começa. Numa paisagem bucólica, uma casa de campo. No alpendre, Seiya de Pégaso, de olhos abertos mas inconsciente, repousa, estático, até ser atacado por lanças afiadas caídas do céu. Os agressores? Três personagens nunca antes vistas, semelhantes a anjos -Touma, Teseu e Odisseu- que se apercebem que Seiya foi atingido só de raspão, e interrogam-se porquê…
Quase que como resposta, surge Saori, silenciosa. A sua atenção mal é captada pelo trio invasor, quando surge uma luz branca, da qual emerge uma personagem feminina… e divina. Trata-se de Ártemis, deusa da caça e da lua, que deseja a morte dos cavaleiros de bronze que tantos crimes cometeram contra os deuses. Saori defende os seus actos, mas a única resposta que tem da irmã mais velha é uma acusação de incompetência nas suas funções. Supondo que Ártemis se acha mais habilitada para o cargo de protectora da Terra, Atena entrega-lhe o Ceptro da Vitória, em troca do perdão aos seus santos cavaleiros.
Depois de um pesadelo em que recorda o momento em que vê a sua armadura celestial trespassada por Hades, Seiya desperta numa clareira. Não sente o cosmos de Atena; logo surge Marin de Águia, que lhe explica o sucedido. Determinado, mas assolado por uma misteriosa enfermidade, Seiya regressa ao Santuário, radicalmente alterado devido à mudança de deusa regente. Marin também o faz, mas não sem antes encontrar nos destroços da cadeira de rodas de Seiya um pequeno pingente, que lhe parece muito familiar…
As ideias principais por detrás desta obra são nítidas ao longo do filme; trata-se da relação dos deuses com os meros mortais. Quais são as suas funções? Quais são as suas intenções? E que papel desempenham os humanos em tudo isto… serão livres? Não passam de marionetas, escravos ou, como é dito na própria longa metragem, «arremedos de deuses»?
Também óbvio é o constraste deus – cavaleiro, evidenciado frequentemente na obra pelas diferentes relações entre Touma/Ártemis e Seiya/Atena, além do momento em que, sem se ver os seus rostos, ouvimos pelo menos três divindades a conversar. De que lado estão os cavaleiros, afinal? Seres humanos que despertaram o seu Cosmos, romperam amiúde os limites (im)postos pelos deuses aos mortais, e contudo… a sua única razão de ser é servirem fielmente os seus senhores. Esta temática já havia sido abordada, infelizmente de modo muito breve, no filme de Abel (Shinku no Shounen Densetsu de 1988), em que Shiryu, melhor que ninguém, se pergunta simplesmente «Pode um mortal opôr-se a um deus?».
Para mais, o aspecto de serem também santos cavaleiros -logo a desobediência a uma ordem divina implicaria traição- nem é de todo referido em Abel. É-o, contudo, em
Abordemos agora alguns pontos fortes e fracos da longa-metragem. Comecemos por assinalar o verdadeiro spoiler que ela constitui… uma das questões mais pertinentes que o anime de Hades poderia vir a esclarecer, já que o manga o deixa em suspenso, é o que acontece a Seiya no final dessa aventura. Obviamente sobrevive, como vemos, o que certamente agrada aos fãs na medida que abre todas as possibilidades para uma nova história pós-Hades; muitos desses fãs, todavia, já escreviam fanfics e exploravam um universo de Saint Seiya sem o próprio santo cavaleiro de pégaso.
Em que ficamos? Mesmo que o objectivo de Tenkai Hen Josou fosse «abrir o apetite» dos seguidores a uma nova Saga, seria mais adequado produzi-la ao mesmo tempo que os episódios (OVAs?) finais de
E que diz a comunidade de entusiastas? A opinião é positiva, salvaguardando algumas críticas; frequentemente dizem respeito ao enredo, que acusam de ser pobre, assim como aos personagens, fracamente caracterizados, sobretudo os inimigos. Discordo; fazer um filme é algo já de si limitado, sobretudo quando o tipo de história está adequado ao formato série… e no meio de tudo, antes os inimigos que os protagonistas, convenhamos! Pessoalmente, creio que o oponente «Touma» está muito bem caracterizado, e conseguimos entrever quais são os seus objectivos, ideais e passado. O próprio Seiya limita-se a afirmar, mais que nunca e com uma convicção invulgar para si, aquilo em que acredita, o que se reflecte de certo modo nos seus quatro companheiros. Quanto ao enredo pobre, concordo que não está à altura do resto.
O filme interessa mais por mostrar os personagens numa situação «mais dramática do que nunca», a perda da autoridade de Atena na Terra, do que por acontecimentos surpreendentes, superiores ao do resto das Sagas. Porém, é uma Overture sobre o que se passa depois da «actual» saga, que ainda nem sequer foi completada… e muito provavelmente nem sequer o esboço do que poderá vir a ser «Zeus». Nestas condições, sabendo quase nada do que o antecede, e ainda menos do que o sucede, até impressiona que tenham decidido abrir-nos o apetite com um filme que tem todas as características de pertencer à linha temporal de Seiya, ao contrário dos quatro outros filmes até agora.
Convém mencionar os restantes santos cavaleiros de bronze… Também os pares Hyoga com Shiryu e Ikki com Shun fazem a sua aparição em Tenkai Hen Josou -Overture-, permitindo assinalar um agradável e inédito facto… eles cooperam activamente nos seus combates! Mais surpreendente ainda: isto produz efeitos muito distintos em cada combate, chegando um dos adversários a usar habilmente os poderes de um contra o outro, numa das lutas mais agradáveis de se ver. Falando de um modo geral, os combates são os que mais beneficiaram do status de «filme» desta produção, com movimentos fluidos e sucedâneos… autênticas sequências «cinematográficas» de luta na verdadeira acepção da palavra, e não trocas de golpes carregados de cosmos, cada-um-mais-poderoso-que-o-anterior, como frequentemente se via. Esses golpes também estão presentes, e Touma abusa deles, com o seu cosmos trovejante (1ª imagem à esquerda), um efeito que não foi particularmente do meu agrado.
E se de uns se abusa, de outros nem sinal… à excepção da fénix flamejante do Ikki, nunca se notam as representações das constelações como pano de fundo de que tanto gosto. Enfim. Outro aspecto menor foram as armaduras desses soldados de Ártemis: pelos diálogos nota-se que são tropas de elite, muito próximas «dos deuses»… contudo seria de se esperar que as suas armaduras reflectissem isso, o que não acontece, à semelhança de Abel.
Finalmente, pormenores técnicos. A arte está a cargo da dupla Shingo Araki/Michi Himeno que tantas alegrias nos dão, que é como quem diz, igual a
Facilmente se obtinha um Tenkai Hen excelente só com 60 minutos de filme, contudo preferiram estender muitas cenas além do necessário, para criar (quem sabe?) um dramatismo que não fazia falta. A boa notícia é que em muitas dessas cenas temos oportunidade de ouvir as soberbas músicas que a equipa de Seiji Yokoyama preparou para a aventura e, tal como em Hades, muitas são carregadas de melancolia e serenidade. Numa ouvimos o som característico de um cravo, lembrando o filme de Lúcifer (Saishûseisen no senshi-tachi, de 1989), e noutra, da minha predilecção, temos uma agradável sinfonia escutada à medida que Seiya se aproxima de Atena. Como não podia deixar de ser, a compilação em CD foi rapidamente disponibilizada e ainda pode ser adquirida.
Por tudo isto, e já vos pondo de sobreaviso sobre os aspectos mais negativos, é com segurança que recomendo o filme a qualquer apreciador de anime para um público masculino -shounen-, sendo imprescindível até para o entusiasta menos fanático de Saint Seiya, desde que armado de uma certa paciência para as cenas mais arrastadas e com menos acção. As cenas de luta, excepto as finais, estão apenas lá para quebrar a monotonia: mais que nunca, os protagonistas são de facto Seiya e Saori.
Espero que a mais recente birra de
Segue-se um comentário final que reservei para aqui por achar que o seu conteúdo poderia conter spoilers… trata-se de pormenores curiosos que notei ao longo do filme.
Esta longa-metragem é rica também em aspectos que poderiam passar despercebidos ao comum espectador, mas com apreciável relevo para o fanático de Saint Seiya mais observador. Nomeadamente, que os olhos do Shiryu e do Hyoga estão perfeitamente curados neste anime, de modo que as alterações no Hades foram definitivas. Por falar em Hades, faz a tal pequena aparição ao desferir um golpe de espada em Seiya de Pégaso, que veste… exacto, é a sua armadura celestial, já vista parcialmente num momento de «futurologia»(?) numa das sequências exclusivas de DVD das 12 OVAs. Também Shaina de Serpentário, Jabu de Unicórnio e Ichi de Hydra estão presentes.
Justo quando tudo na série apontava para não existir nenhuma rivalidade entre eles e Seiya, vemos os dois últimos contraditoriamente com grande prazer a darem o seu melhor para o expulsarem do Santuário… O pormenor final é o facto de… Seiya e Saori conversarem. É curioso como durante a série é raro vê-los a conversar, a planear, a trocar ideias… ou algo mais? Eis que em Tenkai Hen Josou -Overture- Seiya não só corre para Saori, como a alcança, e «finalmente» conversam. O resto… fica para quem quiser ver o filme.
Autor:GoldPhoenix
