A banda japonesa NRGL surge como um dos nomes mais intrigantes da nova vaga underground, cruzando energia crua, experimentação sonora e uma identidade estética difícil de catalogar. Num panorama musical cada vez mais homogéneo, a NRGL destaca-se precisamente pela recusa em seguir fórmulas. A sua música vive da tensão entre agressividade e subtileza, improvisação e precisão, tradição e ruptura.
Conversámos com a banda sobre a evolução do projeto, os desafios de criar música independente no Japão contemporâneo e aquilo que procuram transmitir em palco — um espaço onde a intensidade emocional parece sempre falar mais alto do que qualquer género ou rótulo.

A vossa sonoridade mistura energia de anime, rock alternativo e elementos experimentais — como é que a identidade musical dos NRGL começou a ganhar forma?
Nós simplesmente colocamos na música tudo aquilo de que gostamos. Não temos propriamente uma “banda ideal” específica que estejamos a tentar tornar-nos. O que mais nos entusiasma é o processo teórico de integrar completamente muitas coisas diferentes que pessoalmente gostamos numa só forma.
E como o vosso site foca-se na cultura anime e manga, gostaríamos especialmente de falar sobre a influência do anime no nosso trabalho. Não estamos apenas a incorporar a atmosfera dos animes na nossa música. Acreditamos que o nosso trabalho está centrado no conceito de “Kanshou Masochism” (Masoquismo Sentimental).
Este conceito “Kanshou Masochism” é uma expressão da gíria da internet japonesa que refere-se à sensação de te comparares à juventude idealizada retratada nos anime ou no manga — uma juventude que, na realidade, nunca existiu para ti — e mergulhares intencionalmente no ódio por ti próprio, tristeza e vazio resultantes disso como forma de prazer emocional.
Isto aplica-se não só aos animes, mas também à própria realidade. Achamos que este acto de abraçar activamente o ódio por nós próprios é uma espécie de oração pela juventude que perdemos ou nunca tivemos. Todas as nossas músicas giram em torno da vida escolar e da juventude.
O nome “Nerds Ruined Girls Legislation” é marcante e invulgar. Qual é a história ou filosofia por detrás dele?
As iniciais “NRGL” foram escolhidas para também corresponderem às primeiras sílabas do nome de cada um dos quatro membros em japonês: “Na”, “Ru”, “Gi” e “Re”. Ao mesmo tempo, a expressão também carrega uma nuance de revolta contra a subtil hierarquia escolar e a misoginia inerente à cultura otaku.
São frequentemente associados a influências como FLCL e a cultura Vocaloid — de que forma os animes e as cenas de música digital moldaram o vosso processo criativo?
Achámos que seria possível criar algo novo ao combinar a existência física de uma banda real com a natureza ficcional e semelhante a personagens da cultura anime e Vocaloid. O nosso primeiro álbum completo, “Nerds Ruined Girls Legislation”, foi criado sob o conceito de “Episódio 1 de um anime nocturno”.
O álbum decorre durante a primeira metade de um ano escolar e contém apenas músicas associadas à primavera e ao verão, enquanto que o nosso segundo álbum “Another Days After Story”, é a continuação desse conceito — “Episódio 2 de um anime nocturno”. Este álbum decorre durante a segunda metade do ano escolar e contém apenas músicas associadas ao outono e ao inverno.Organizámos a ordem das músicas e o fluxo sonoro com muito cuidado para que cada álbum parecesse um episódio completo de anime do princípio ao fim.
Dentro deste conceito, posicionamo-nos não apenas como membros da banda, mas como membros do “Narugire Production Committee”, semelhante aos comités de produção de anime no Japão. É também assim que nos creditamos oficialmente. No nosso site e perfis, escrevemos até descrições de personagens ao estilo de light novels.

A vossa música tem por vezes uma sensação crua e caótica, mas também momentos de vulnerabilidade. Como equilibram essas emoções contrastantes na composição?
Queremos fazer música intensa. Honestamente, queremos sempre torná-la ainda mais intensa. O lado mais delicado provavelmente vem das nossas próprias personalidades. Também temos consciência do contraste e da dinâmica quando fazemos os arranjos.
Mas, na verdade, não estamos a tentar “equilibrar” estas emoções. Simplesmente expressamos emoções frágeis e emoções violentas ao mesmo tempo.
Podem explicar-nos o vosso processo criativo habitual — desde a ideia inicial até à faixa final?
A Kotori, nossa guitarrista/vocalista e principal compositora, cria primeiro uma demo. Nessa fase, os riffs básicos de guitarra e baixo já existem, juntamente com padrões rudimentares de bateria. Depois disso, o processo torna-se muito aditivo. Cada membro continua a acrescentar tudo aquilo que pessoalmente quer fazer na música.
A Kotori quase nunca rejeita as ideias de ninguém, por isso o resultado final acaba naturalmente por tornar-se cru, excessivo e caótico no bom sentido. Algumas músicas com estilos vocais diferentes são compostas pelo nosso guitarrista, Kabayama.
A cena underground/indie japonesa tem uma energia muito própria. De que forma fazer parte dessa cena influenciou a evolução da banda?
Uma grande influência da cena underground e indie japonesa foi, sem dúvida, o shoegaze. Achamos que a estética shoegaze funcionou extremamente bem com os nossos temas e criou uma reacção química muito forte com a atmosfera emocional que queríamos expressar.
Visualmente e esteticamente, o vosso trabalho parece muito intencional. Quão importante é a identidade visual (arte, vídeos, moda) para os NRGL?
A identidade visual é extremamente importante para nós. Como o nosso projecto baseia-se em combinar a existência física de uma banda com a estética de personagens inspiradas em anime e Vocaloid, os visuais são uma parte essencial da nossa expressão. No entanto, como muitas vezes nos faltam orçamento e tempo, os resultados podem por vezes parecer baratos de forma intencional ou não intencional.
A arte dos nossos álbuns foi desenhada pela irmã mais nova de um dos membros. Ela também criou a capa, as fotografias promocionais e o logótipo do nosso primeiro álbum.
Recentemente, a arte em estilo anime tornou-se muito popular na cena indie e alternativa japonesa. Mas, no nosso caso, o aspecto anime está directamente ligado ao conceito central da própria banda. Desde o nosso primeiro lançamento, as quatro personagens que aparecem nas ilustrações representam sempre os quatro membros da banda.

Como o ClubOtaku é um site sobre manga e anime, podem dizer-nos quais são os vossos animes e mangas favoritos ou o que estão a ler actualmente?
Alguns dos nossos animes e mangas favoritos são: “FLCL”, “Bokurano”, “Boku no Kokoro no Yabai Yatsu”, “Bocchi the Rock!”, “Girls Band Cry”, “Uma Musume: Pretty Derby”, “Sound! Euphonium”, “The Melancholy of Haruhi Suzumiya”, “Neon Genesis Evangelion”, “Assassination Classroom”, “Kill la Kill” e “Haikyuu!!”.
Também gostamos de visual novels e jogos como “Sayonara wo Oshiete” e temos também muito interesse na cultura VTuber. Alguns VTubers de que gostamos são Kou Uzuki, Mea Kagura, Mikoto Rindou e Mito Tsukino.
Há artistas — dentro ou fora do Japão — com quem sintam uma forte ligação ou inspiração neste momento?
Alguns artistas que actualmente nos inspiram bastante são: kurayamisaka, moreru, Murray a Cape, Umisaya, asameshimae, Micro Bosatsu e nullmachi.
Olhando para o futuro, podem contar-nos quais são os vossos planos para breve? Algum novo lançamento?
Queremos lançar o nosso terceiro álbum no próximo ano. Desde que estávamos a fazer o nosso primeiro álbum, já acreditávamos que o terceiro álbum iria ser a nossa obra mais conceptual e definitiva.
Muito obrigado mais uma vez pela oportunidade. Estamos ansiosos por ver o artigo e visitem o nosso site ( https://nargileband.wixsite.com/nargile ) para saberem mais novidades sobre nós.
Escrito: Fernando Ferreira
