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Escaflowne

Chamam-lhe «Nova Sci-Fi» no Japão, uma mescla de Ficção Científica com estilo Fantasia tão ao gosto dos japoneses. Geralmente consiste na introdução de tecnologias em princípio só disponíveis em futuros distantes em ambientes quase medievais. Este artigo refere-se a um bom exemplo, «The Vision of Escaflowne».

Passado na Sic Radical durante a primeira vaga de anime, a sua história foi concebida por Kawamori Shoji para os estúdios Sunrise, tendo os seus 26 episódios sido primeiramente exibidos no seu país natal em Abril de 1996. Essa história, na qual sem dúvida reside grande parte do valor de «Escaflowne», retrata a aventura de uma estudante secundária (Kanzaki Hitomi) que vê a sua rotina de escola, atletismo, adivinhação do futuro e ocasionais suspiros pelo seu adorado Amano-sempai completamente rompida quando na sua pista de atletismo se materializa um rapaz batalhando um enorme dragão terrestre.

Inesperadamente, morta a besta, ambos são transportados para o lar do rapaz, afinal o príncipe Van Fanel que necessitava da esfera no interior do dragão para animar o gaimelef (mecha medieval parecido com uma enorme armadura) real, Escaflowne, durante a sua coroação. Infelizmente esta é interrompida por um esquadrão do visinho Império Zaibacher, que visa roubar esse gaimelef e arrasar o reino de Fanélia. É assim que têm de fugir, acabando por encontrar auxílio às mãos do galante Allen Shezar, Cavaleiro Celeste do vizinho reino de Astoria, provavelmente o próximo alvo do Império Zaibacher. Este é liderado por um homem misterioso e extremamente idoso, Isaac Dornkirk, um visionário que transformou um povo oprimido num orgulhoso império de tecnologia. Mas ele deseja mais… deseja construir a lendária Máquina da Atlântida, que era usada por esse antigo povo para transformar sonhos em Energia… e o instrumento de que precisa não é outro senão o próprio Escaflowne. E, como podem calcular, Hitomi já não está no nosso planeta, uma vez que no céu nocturno, ao lado da Lua, se pode avistar… a Terra.

Uma descrição algo brusca? A história de «Vision of Escaflowne» é mesmo muito rica, conseguindo juntar vários aspectos no mesmo anime. Vendo o percurso do princípio ao fim, parece quase uma simples história de romance de liceu, com a típica estudante que se vê no meio de uma situação inesperada. Mas crianças não são o seu público alvo, não quando se abordam assuntos como quase-genocídio; a importância das forças que governam a nossa vida como a Vontade, a Atracção e o Destino; e temos ainda o problema do peso que uma coroa pode ter, quando as razões de Estado entram em conflito com aquelas de um Cavaleiro Celeste, de uma Infanta ou de um Rei. E, claro, os aspectos high-tech no meio de um mundo ainda coberto por florestas. Curiosamente, acaba por ser o próprio romance a trazer bastante suspense à série, uma vez que o final é simples e pouco dramático, contrastando com o resto da história. Exceptuando, é claro, as ocasionais batalhas de gaimelefs.

Falando nestas, é nelas que reside a parte mais marcante da série. O conceito está muito bem explorado, o de enormes armaduras animadas pela energia de dragões; o seu design está espectacular, quer dos modelos mais tradicionais (como o Escaflowne) como do avançado gaimelef de Dilandeau, chefe do esquadrão designado para caçar o Escaflowne, um soldado algo psicótico e com uma definição extrema do sentido do dever, que gosta de deitar fogo a tudo aquilo que acabou de destruir: sem dúvida um vilão dos mais infames, que todos apreciarão.

Outro valor de Escaflowne reside no conjunto de crenças que toma para construir o enredo: desde lendas sobre animais fantásticos (dragões e sereias fazem a sua aparição aqui), capacidades sobrenaturais (ver o futuro, telepatia), histórias sobre mundos «alternativos» (do planeta em questão, Gaia, pode-se ver a Terra; o inverso não é verdade), o mito Atlante (é oferecida a «explicação» para o desaparecimento deste povo) e o antigo sonho de se obter tudo aquilo que se deseja, manipulando o Destino como quem prevê o tempo.
Evidentemente que tudo isto seria inútil se não fosse devidamente aproveitado pelas personagens, e «Escaflowne» não decepciona, com personagens riquíssimas. Eu diria mesmo que desde o princípio da história até ao clímax o interesse está focado nas decisões dos vários personagens, o que é por vezes aborrecido, quando uma emocionante batalha é interrompida porque alguém tomou uma atitude imprevisível. Não é de espantar, portanto, que todos tenham uma psicologia dominadora, mas são ainda assim capazes do inesperado. Para mais, todos estão ligados entre si das formas mais surpreendentes… Desde um insuspeito grau de parentesco até partilharem o mesmo mestre.

Tendo tudo isto em conta, parecerá incompreensível se disser que as atitudes das personagens são fracas. Ou melhor, em comparação com a sua psicologia, a postura que tomam é, às vezes, decepcionante. Allen, o nobilíssimo Cavaleiro, irrita-se com simples bocas de um comerciante abastado; a Hitomi tira-lhe mais o sono as preocupações amorosas dos seus amigos, em vez de gritar a plenos pulmões «Levem-me para casa!!»: durante a temporada que passa em Gaia, apenas tem «saudades do seu Amano-sempai», ignorando escola, família e o lar; o próprio Amano-sempai, seu adorado, é logo esquecido, sonhando a adolescente ora com Allen, ora com Van; e, claro, o sanguinário Dilandeau, soldado experiente que mal vê os seus homens começarem a ser derrotados fica pálido e assume um ar aterrado (última imagem do lado esquerdo).

Se há aspecto polémico em Escaflowne, é a arte. Paisagens? Belíssimas. Roupas e adereços? Óptimos. Cidades e fortalezas? Originais e com um misto de alienígena e de medieval. Gaimelefs? Espectaculares e reflectindo o grau de nobreza do portador. Ora, se tudo isto está bem, porque raio fizeram personagens tão simples e com narizes tão… pontiagudos? A forma dos olhos é básica, o reflexo dos cabelos por vezes não passa de uma simples barra de cor mais clara… Apesar de tudo isto, estamos isentos de um mal que afecta muitos animes: o de as personagens serem todas iguais, sendo apenas pelo cabelo e roupa que se distinguem… aqui é o oposto, temos personagens bem definidas pelos seus caracteres faciais diversos, além de roupa e estatura.

Os aspectos sonoros não estão maus para uma série de 26 episódios… o Yakusouku wa Iranai do genérico inicial é agradável, mas são os pseudo-cantos gregorianos durante os momentos austeros, que conferem o ambiente solene de Gaia, que marcam «The Vision of Escaflowne». E quanto à equipa de seyuus, temos como Hitomi, Maaya Sakamoto (Kauru de El Hazard, Leaf de Lodoss War); como Van, Tomokazu Seki (Gai Diagouji de Nadesico, Chichiri de Fuushigi Yuugi, Ken Hidaka de Weiss Kreuz); e como Allen, Shinichiroh Miki (Larva de Vampire Princess Miyu).

No geral, «Escaflowne» é um bom anime que se destaca dos demais pelos vários factores evidenciados pelo enredo, convenientemente entrelaçados numa boa história. Assim, dizer que a personagem principal é a Hitomi pode ser algo forçado, já que as motivações de Van muitas vezes assumem o protagonismo, e há alturas em que o passado de Allen pode ser bem mais cativante. Não é à toa que desta vez foi o anime que originou o manga, afinal dois (!), uma versão shoujo e outra shounen, além do filme «Escaflowne: A Girl in Gaea», tão célebre pelo seu enredo simplificado como pela sua arte diferente (para melhor, sem dúvida). Curioso é que, no meio de tanta ficção e fantasia, eu não me lembre de se mencionar a palavra «magia» uma só vez em todos os episódios…


Autor:GoldPhoenix

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