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Kazuo Dan: Um japonês na praia de Santa Cruz

Um escritor e poeta japonês do período do pós-guerra, Kazuo Dan, viveu um ano e quatro meses na praia de Santa Cruz. Inicialmente, previra ali residir apenas meio ano. Mas adaptou-se tão bem à vida naquela que era, em 1970-71-72, uma rústica aldeia piscatória, que resolveu prolongar a estadia por ainda mais 4 meses. A razão pela qual escolhera a Praia de Santa Cruz foi porque o local permitia uma íntima interacção entre ele próprio e o Céu e a Terra, tudo com o som do mar ao fundo. “Para isso, a Praia de Santa Cruz era perfeita, sem igual. (…) Os raios solares reluziam incansavelmente no alto da minha fronte e, a meus pés, havia sempre o mar a desenhar as suas estampas onduladas”, escreveu.
Quanto não seria exótica aquela presença do escritor japonês numa aldeiazita piscatória nos recuados anos 70 do séc. XX!

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Quando se mudou para Portugal, Kazuo Dan contava já cinquenta e oito anos. Cedo iniciara cedo a sua actividade literária, publicando desde os dezasseis anos no Liceu de Fukuoka. Em 1932, frequentou a Universidade de Tóquio, a mais prestigiada do país. Mas, ao invés de estudar, e embora se tenha conseguido formar em Economia, passou aqueles anos a ler e a escrever. A sua carreira ficou lançada quando publicou “O Carácter desta Família” na revista Shinjin, que recebeu críticas elogiosas. Decidiu então consagrar-se inteiramente à escrita. Foi o vencedor do Prémio Noma de 1944.

Quando lhe foi atribuído, encontrava-se na China como correspondente de guerra. Só regressou ao Japão no final da guerra, casando-se então em Yanagawa com Yosoko-san. A sua vida foi sempre aventurosa.
Uma vez estabelecido em Tóquio, de novo é premiado, desta feita com o Prémio Naoki, em 1951. Entre a publicação de romances e poesias, viaja pelo Japão, pela Europa, pelos Estados Unidos, China, URSS, Austrália e Nova Zelândia. Visitou Portugal em 1970 e a sua afinidade com a Praia de Santa Cruz foi de tal ordem que decidiu estabelecer-se lá. Alugou uma casita abandonada, que considerava o seu palácio e que pode ser visitada na rua que hoje tem o seu nome, Rua Kazuo Dan, nº 6.

Naquele tempo, permaneciam em Santa Cruz durante todo o ano apenas cerca de duzentas pessoas. Todos se conheciam e ninguém fechava à chave a porta da sua habitação. Todos os dias Kazuo Dan percorria os dez quilómetros que distavam da sua casa ao penhasco, para aí contemplar a amplidão do oceano. A paz era apenas perturbada durante o verão, quando as praias se enchiam de veraneantes. Mas isso só acontecia de Junho a Setembro. Com o baixar da maré de meados de Setembro, os vinte mil veraneantes desapareciam. O mar voltava então a ser todo seu: “E, se caminho pela extensa praia de areia branca que se estende ao longo do penhasco, só a minha pista desenha um cinturão duplo sobre ela.” Nadou quase diariamente por entre as ondas do Porto das Vacas até ao início de Dezembro, devido às temperaturas amenas de Portugal.

Cedo um cão abandonado começou a segui-lo nas suas incursões junto ao mar. Além do cão, Kazuo Dan adoptou também um passarinho. Perguntou um dia a um rapazito o nome de uns passarinhos que cantavam de maneira peculiar. O menino capturou e ofereceu-lhe então um desses cantores. Era um pintassilgo. E Kazuo Dan foi com o garoto comprar-lhe uma gaiola.

Pela manhã, dedicava-se às plantas do quintal, composto de sementes e flores apanhadas nos campos. Regava-as, adubava-as e polvilhava-as com químicos e cinzas da lareira, desconhecendo muitas vezes os seus nomes. Impressionava-o o florescimento das plantas e flores de Portugal. Tudo florescia com um ímpeto e uma exuberância como ainda não lhe fora dado ver. A própria mulher, quando o visitou, admirou-se com a pujança da natureza portuguesa. Com o seu gosto japonês pelo despojamento, chegava a cansar-se de ver tanta flor: “Há demasiadas flores em Portugal!”
A maior paixão de Kazuo Dan era, no entanto, o pôr-do-sol em Santa Cruz: “O que há de realmente esplêndido lá é o poente.

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Sempre que sentia a sua proximidade, deixava de lado o que quer que estivesse a fazer, corria ao penhasco mais próximo e punha-me a gritar, a exemplo do ilustre Kiyomori[1]: “Devolva-mo! Devolva-mo!”
Então, sentia a vibração do sol ardente no meu âmago e via-o desaparecer por entre as ondas.
O reluzir das nuvens logo a seguir era de uma beleza inesquecível.”
Mas não se pense que Kazuo Dan tinha vida de eremita. Na verdade, depressa fez amigos entre os habitantes. O sobrenome Dan assemelhava-se foneticamente a Dão – por sinal, o seu vinho favorito – e, por essa razão, a sua presença e o seu nome ficavam bem marcados na memória dos portugueses. Foi graças a Kazuo Dan que o vinho Dão e a Praia de Santa Cruz passaram a ser conhecidos pelos japoneses.

Quando regressava a casa dos seus passeios junto ao mar, aguardavam-no sempre presentes chorudos: sargos e robalos gigantes do Joaquim e enguias trazidas pelo José. Chegavam a oferecer-lhe trinta enguias e peixes tão grandes que Kazuo Dan não tinha outro remédio senão organizar um pequeno banquete e convidar os habitantes a comê-los com ele. Com os robalos ainda vivos do Joaquim, preparava um delicioso sashimi e sopa japonesa e com os sargos do José fazia chazuke. Com o coração pesado, era obrigado, por vezes, a deitar fora o excesso de alimentos cuja proveniência era a inesgotável generosidade das gentes simples de Santa Cruz. Adorava percebes, que até então desconhecia, mas os amigos forneciam-lhe tantos que acabava por ter de os lançar à lareira. Joaquim e José, porém, tinham o orgulho dos pescadores e levavam-lhe sempre do maior e na maior quantidade que pudessem.

Também o enchiam de fruta. “Não desprezem a fruta portuguesa!”, alertava Kazuo Dan. A doçura das uvas portuguesas fazia as japonesas parecerem desenxabidas. As maçãs enrugadas e pequenas que lhe levou a mãe da Anabela do café da esquina provocaram-lhe a princípio viva desconfiança. Mas quando se atreveu a prová-las “fiquei tão surpreendido com tamanha delícia que quase sufoquei.” E escreveu acerca delas: ”O sumo e a polpa daquelas maçãs enrugadas apresentavam-se em perfeita harmonia e pude apreciá-las como se guardasse na boca uma criação divina e perfeita chamada “maçã”.” As cerejas e os melões de Portugal deixavam-no igualmente extasiado.

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Mas a mais grata recordação seria a dos amigos da Praia de Santa Cruz.
Ao rumar ao Japão, na véspera do seu 60º aniversário, a 2 de Fevereiro de 1972, ia com a esperança de regressar a Portugal. Por essa época, escreveu:
“Estive cerca de um ano e quatro meses numa aldeia chamada Santa Cruz em Portugal.
Não, tenho a sensação de que a minha casa ainda fica em Santa Cruz e estou temporariamente no Japão para ver o que se tem passado.
Porque as minhas duas empregadas Odete e Carolina estão ansiosas pelo meu regresso; porque deixei um pintassilgo que já se amansou comigo numa gaiola e um cão chamado Poli deve estar a percorrer o caminho entre a praia e a casa, à minha procura.
Não apenas isso. No quintal, os espinafres, os nabos, as couves estão todos à minha espera estendendo as folhas ao sol e o canteiro ao centro deve estar repleto de flores vermelhas, brancas e amarelas, num prelúdio da aproximação da primavera.
E mais, a Anabela do café da esquina, que me iniciou na língua portuguesa, a sua irmã Maria Cármen, a Ana Maria do salão de beleza, a Maria Calada do bar, a Judite Navarro, a escritora… Aliás, não apenas mulheres, mas também o Fernando inválido, o Carlos da taberna, os pescadores Joaquim e José e o Humberto alcoólico… Estão todos à minha espera de braços abertos.
Em toda a minha vida, nunca havia feito amizades tão sinceras e tão intensas como as de lá, no espaço de pouco mais de um ano.”

No entanto, durante uma viagem à Coreia e a Taiwan, sentiu-se mal do fígado. Retirou-se do bulício de Tóquio, procurando refúgio na sua ilha natal, Kyushu. Num dia de Junho de 1975, sentiu uma dor aguda nas costas e foi hospitalizado. Suspeitava já que sofria de cancro, cuja causa terá sido talvez o seu amor pelo vinho. Apressou-se então a finalizar a sua obra. Durante dez dias seguidos, ditou aquele que viria a ser o romance “O Homem das Paixões”, que começara a escrever em Santa Cruz.

No dia 2 de Janeiro de 1976, Kazuo Dan exalava o último suspiro, sem ter conseguido realizar o seu último desejo: regressar à pequena aldeia portuguesa.
A memória de Kazuo Dan, todavia, seria perpetuada na aldeia: através da iniciativa de um grupo de amigos japoneses do escritor e poeta, liderados por Takao Nakatani, implantou-se um monumento a Kazuo Dan, no lado norte da Capela de Santa Cruz, a 2 de Janeiro de 1992. Na parte posterior do monumento, encontra-se gravado um poema que do escritor acerca do sol poente em Santa Cruz, o haiku [2] de que mais se orgulhava:

Rakujitsu wo
Hirohini yukamu
Umi no hate

Em português:

Belo sol poente!
Ah! Pudesse eu ir buscar-te
Lá, ao fim do mar!

A palavra rakujitsu, sol poente, está associada ao outono e simboliza também a decadência, a vida que se esvai e que o poeta desejaria deter.

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Na base do monumento pode ler-se ainda:
“Homenagem a Kazuo Dan
Kazuo Dan foi um dos mais populares escritores do Japão do pós-guerra. Possuidor de uma rara sensibilidade literária, Dan viveu uma vida cheia de aventuras, tendo percorrido todo o mundo.
Este poema “Poente”, que ele adorava, foi escrito aqui em Santa Cruz, onde viveu e criou íntimos laços de amizade com os habitantes da aldeia. Logo após ter regressado ao Japão, adoeceu. Em 1976, aos sessenta e três anos, este poeta errante encerrava o seu ciclo de vida, sem cumprir o seu sonho de regressar a Santa Cruz.
Em cumprimento do seu desejo, construímos aqui este monumento, a fim de aprofundar as relações de amizade entre Portugal e o Japão.

2 de Janeiro de 1992.

Representante dos amigos: Takao Nakatani.”

Inacreditavelmente, não existe um único livro deste escritor e amigo de Portugal na nossa língua. Que melhor homenagem lhe poderiam prestar do que tornar acessível a sua obra aos portugueses?

[1] Taira no Kiyomori, general do Período Heian tardio – séc. XII d.C. – que estabeleceu o primeiro
governo administrativo dominado pela classe samurai.
[2] Poema de três versos de, respectivamente, cinco, sete e cinco sílabas e que inclui sempre uma palavra de referência às estações do ano.

Bibliografia: brochura “O Pôr do Sol em Santa Cruz. Memórias de um japonês sobre uma aldeia portuguesa” de Kazuo Dan, traduzida do japonês por Norio Kinshichi, Japão, 1992.

Escrito por: Cláudia Ribeiro

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