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Origem da palavra mangá

Numa entrevista a Katayori Mitsugu feita por Fusami Ogi, discute-se o desenvolvimento da palavra Mangá. Katayori Mitsugu, nascido em 1921, é um dos poucos artistas de antes da Segunda Grande Guerra e, mais significativamente, um dos primeiríssimos críticos (e coleccionadores, investigadores, etc.) desta “nova arte” no Japão.


Esta entrevista foi publicada, em inglês, pela também investigadora de mangá, Fusami Ogi, no International Journal of Comic Art, Outono de 2005, pp. 47-67. Não foi pedida autorização para esta tradução nem transformação, mas cremos que a sua divulgação é não só aceitável, como bem-vinda e necessária. Os interessados poderão pedir-nos uma cópia completa desta entrevista, tal qual publicada. Este artigo reduz-se a uma tradução de um primeiro período da entrevista, com alguma re-apresentação dos dados aí incluídos.

Mangá assumindo uma nova forma no Período Meiji (1868-1912)

Katayori Mitsugu: Presumo que gostaria, em primeiro lugar, que eu fizesse algumas considerações gerais sobre a mangá no período em que comecei a trabalhar.

Fusami Ogi: Sim, por favor.
Katayori Mitsugu: Por exemplo, nos tempos mais recuados, pode encontrar duas palavras que significavam mangá. Uma é giga, como em Choju Giga [caricaturas antigas desenhadas em rolos durante o período Heian (794-1185), atribuídas ao monge budista Toba Sojo (1053-1140); nota da autora], e a outra é mangá, como em Hokusai Manga [Katsushika Hokusai (1760-1849) era um pintor de ukiyo-e do período Edo (1603-1868). Hokusai Manga é uma colecção de desenhos de Hokusai publicados entre 1814 e 1834. n.a.]. mas os conceitos de mangá eram muito diferentes daquele que temos hoje em dia. Toba Sojo, o autor do Choju Giga, imaginava o giga como a antítese a algo ortodoxo. A palavra mangá no Hokusai Manga deriva da palavra manzen, que significa procurar sem objectivo. Há muito tempo, na China, existia um pássaro chamado Mangakucho. Tinhas pernas longas e comia moluscos de rio. Hokusai pensou neste pássaro quando quis dar nome à sua colecção de desenhos. Ele desenhou tudo o mais possível, tal como este pássaro a colher tudo o que lhe aparecia pela frente, no rio. Nem Toba Sojo nem Hokusai empregavam a palavra mangá com o sentido que ela hoje assume. Quando eu comecei a desenhar mangá, há já muito tempo, aí pelo início do período Showa (1926-1989), o conceito de mangá era também diferente de qualquer desses dois significados. Para nós o conceito de mangá era mais próximo do de kyogai [que veio ocupar o espaço da tradição do Choju Giga; n.a.] desenhos exagerados que eram muito populares durante a época de Edo. Kyoga significa literalmente “desenhos loucos”. Nós víamos a mangá como algo divertido, leve, como desenhos populares do período Edo.

Fusami Ogi: Mangá significava então desenhar causalmente, o que viam na vida de todos os dias, não é?
Katayori Mitsugu: Bom, mangá não era nada de ponderado ou sério. Falei muitas vezes com Tagawa Suiho, um dos meus colegas mais velhos e autor de Norakuro, por exemplo. Os seus pares chamavam à mangá ponchi-e, que derivara do título da revista inglesa de banda desenhada, Punch.

Fusami Ogi: Falavam de ponchi-e em vez de mangá?
Katayori Mitsugu: Exacto. O mais provável é que utilizassem essa palavra desde o fim do período Meiji até ao início do Showa. A palavra ponchi-e não parecia soar muito bem à minha geração. Um dos meus colegas mais velhos, de esquerda, desprezava o ponchi-e, e disse-me: “desenhar ponchi-e arruinar-te-á o talento”.

Fusami Ogi: A sério?
Katayori Mitsugu: Mas o ponchi-e parece ter exercido um fascínio qualquer sobre as pessoas do período Meiji, isto é, as pessoas da geração anterior à minha. (…) A revista Punch teve um grande impacto numa revista japonesa, a Marumaru Shimbun (1877-1907). (…) Há uma grande diferença entre as ideias sobre a mangá entre a minha geração e a anterior à minha. A maior parte dos artistas da geração anterior à minha, tal como a de Tagawa Suiho, cresceram no período Edo quando o Japão estava fechado para o resto do mundo. Por isso, ouvi dizer, admiravam muito as revistas estrangeiras como a Punch de Inglaterra, e queriam desenhar mangá similar a essa. Há apenas uma pequena diferença de tempo entre a minha geração e a dos meus colegas mais velhos, mas enquanto eu crescia, o ponchi-e era considerado de segunda categoria.

Fusami Ogi: Mas apesar dessa reputação, o que o levou a fazer mangá?
Katayori Mitsugu: A mangá começou, aos poucos, a representar o real. Nos nossos dias, desde o início do período Showa, paulatinamente, começaram a surgir mais cartoons socialistas e comunistas, que me fascinavam. A partir do fim da era Taisho (1912-1926) até ao princípio de Showa, o socialismo e o comunismo começaram a tornar-se mais activamente influentes. A forma da mangá poderá ter sido afectada por essa tendência.

Fusami Ogi: Então a mangá era fascinante para si por ser um novo meio para expressar os seus pensamentos? Para si, a mangá era um meio efectivo para mostrar as suas opiniões e ideias.
Katayori Mitsugu: Sim, acho que sim. Mas a minha geração estava só a seguir a anterior na sua imediata aceitação da mangá como uma nova forma que tinha sido introduzida no Japão. Por isso, mesmo que ambas as gerações considerassem a mangá como algo novo, havia ainda assim uma grande diferença no conceito que tinham de mangá. (…)

A primeira publicação dedicada ao estudo de mangá em que Katayori Mitsugu participou foi a Karikare, a última publicada antes do início da guerra (1938); sendo conhecido como cartoonista (precisamente de imagens únicas, mas não se estabelece a mesma diferença linguística no Japão que nós entre “bd” e “cartoon”), dedicou grande parte da sua vida ao estudo da história da mangá, incidindo sobretudo num seu aspecto político, nomeadamente a mangá proletária e de propaganda.

Comunista, Katayori teve vários problemas ao longo da guerra, mas também viria, mais tarde, a receber prémios pelo seu trabalho. Foi editor das seguintes publicações: Rodo Manga Kenkyuu (“Estudos de Mangá Proletária”, 1971), Manga Geijutsu Kenkyuu (“Estudos de Arte de Mangá”), autor de Sengo Manga Shiso Shi (“Uma História do Pensamento na Mangá do Pós-Guerra”, 1980).

Escrito por : Pedro Vieira Moura

3 comments
  1. Ana Brandão

    Boa Tarde,

    Eu gostaria se fosse então possível de ter uma cópia do original, para referenciar na minha tese. Aqui foi o único sítio que a encontrei.
    Obrigada pelo artigo.
    Ana

  2. Pedro Moura

    Olá a todos. Se a Ana Brandão me puder deixar o seu contacto, posso tentar fazer chegar uma digitalização do artigo referenciado. Obrigado. Pedro Moura

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